Santa Casa
1- Estacionei em frente ao portão de grades baixas. A casa ainda era tal como me lembrava, mesmo depois de tantos anos. Apenas que a tinta da fachada mostrava as cicatrizes do tempo sem nenhum pudor, e mesmo da rua já conseguia notar a podridão corroendo o batente de uma das janelas, de madeira.
Perdi alguns segundos nessa muda contemplação antes de desligar o carro e abrir a porta. Foi como uma lufada de passado revolvendo meus cabelos que já começam a mostrar fios cinzentos. Milagrosamente o cadeado atendeu à chave que eu trazia, mesmo depois de tão longo intervalo sem ser aberto. Mas as dobradiças gemeram insistentemente, num grito agudo e metálico, enquanto abri o portão.
Subi os degraus que levavam à sala, abri um outro portão de ferro, acesso à varanda, e girei a chave na porta. Um cheiro de coisa velha e poeira estagnada invadiu minhas narinas. Alguns lençóis brancos cobriam os móveis e objetos, dando ao ambiente uma aparência assustadora. Não consegui evitar um calafrio, mesmo estando num local tão familiar.
Minha casa. Vinte anos depois.
Removi um dos lençóis e me sentei sobre o sofá da sala, sem me incomodar com a poeira pairando em meu redor. Entreguei-me a lembranças: meu irmão almoçando com o prato de comida na mão, em plena sala, enquanto assistia TV… parecia que ele estava ali, na minha frente, naquele exato momento. Minha mãe fazendo os trabalhos domésticos e rindo sempre que eu soltava algum comentário mais espirituoso sobre a programação televisiva do fim de semana: "bom motivo pra sair de casa e escapar de ver esse lixo", eu dizia. E ela deitava a cabeça para trás num espasmo de bom humor.
Sim, parecia possível ouvir os latidos da Laika, a pastora alemã de meu irmão, estranhando qualquer movimento no jardim. E os gritos insistentes dos meus sobrinhos, filhos de minha irmã, brincando de pega-pega na rua em frente à casa. Assim ficavam, os dois meninos e a menina, até que o cheiro do bolo preparado pela avó chamava a atenção, e os pequenos abriam mão da brincadeira por um pedaço, geralmente acompanhado de leite com chocolate.
Nem mesmo a sisudez do meu pai, estirado na poltrona perto da lareira, tirava o clima de festa desta casa naqueles tempos. Ele ficava ali, olhos meio avermelhados do vinho, a barriga proeminente apontando para o teto assim como os dedos dos pés calçados com sandálias. A boca fechada numa curva para baixo, as sobrancelhas encontrando-se raivosamente no meio da testa, um ou outro resmungo na garganta, ininteligível. Mastigando memórias, era como ele ficava. E pela cara, não eram memórias saborosas.
Só quando os netos entravam, numa algaravia desvairada em direção à cozinha, podia-se notar algo parecido com um sorriso naquele semblante fechado. Mas isso era só por um segundo, antes da infalível bronca que se seguia: "que bagunça, não se tem mais paz nem dentro de casa! Limpem os sapatos, malcriados!". Minha irmã nem se incomodava mais com essas reprimendas, tão comuns e rotineiras se tornaram. Limitava-se a dar um beijo na fronte do velho, que recebia o agrado fingindo contragosto, e gritava para os filhos: "obedeçam seu avô"… mas a essa altura as crianças já estavam na cozinha se banqueteando com o bolo da avó sorridente.
Foi num dia mais ou menos assim que meu irmão se aproximou de mim e disse, alegre, que iria para a Europa no semestre seguinte. "Como assim, abandonar a faculdade?", surpreendi-me. "Não fui talhado para o Direito, meu caro", ele respondeu. "Pra falar, a verdade, não sei pra que fui talhado. Não acredito nesse negócio de vocação. Vou viajar, conhecer o mundo, vejo se descubro o que quero fazer da vida". Olhei para o meu pai, imaginando o desapontamento dele ao saber da notícia. Meu irmão descobriu meus pensamentos imediatamente, e falou como se estivesse respondendo a eles: "Não vou usar o dinheiro do velho. Vou vender meu carro, vendo o computador também… fico morando em albergues, mochileiro. Cara, tenho 23 anos, é pouco tempo pra definir o meu caminho!".
Ah, se meu irmão soubesse que o que menos importava na questão era dinheiro… Nosso pai não conseguia evitar comparações entre nós dois. Eu, dois anos mais novo, já estava prestes a me formar em medicina. Ele, ainda sem uma profissão definida. Para o velho, isso era o sinal mais claro e incontestável de vagabundice. Um crime que ele não perdoava. Meu pai gastaria toda a fortuna arrematada na carreira de médico, se fosse para o filho mais velho ir à Europa atrás de uma especialização ou uma carreira… Eu, pelo contrário, mesmo seguindo a profissão dele, mostrando-me aplicado nos estudos, sério, competente e previsível, jamais consegui de meu pai algo mais do que um olhar enfadado, como quem dizia "não faz mais que a obrigação". Para o meu irmão, porém, o sentimento era outro. Uma reprovação sistemática e constante, que na verdade escondia toda a dor de expectativas frustradas. Nem esse sentimento eu conquistava com todo meu empenho. A mim, o que coube sempre foi a mais completa indiferença paterna.
O assalto dessas imagens, vindas de um passado que eu julgava enterrado para sempre, se esvaíram lentamente enquanto o sol se punha no horizonte. Levantei-me, espantando de minha mente o ruído dos sobrinhos bagunceiros, e fui até a janela, que abri com alguma dificuldade. Apreciei de novo aquele por do sol tantas vezes observado na minha infância. Um a um, recordei os destinos que couberam a cada um daqueles personagens familiares: a morte de meu irmão por overdose depois de horas de agonia num hospital infecto da Turquia; os sobrinhos espalhados pelo mundo, a menina seguindo uma chata e redundante carreira bancária; o garoto mais velho, em algum lugar da Argentina, trabalhando como guia de pescarias esportivas; o mais novo, casado, com filhos, com cachorro, gato, periquito e uma escravizante rotina de comerciante numa lojinha de Salvador, para onde se mudou para acompanhar a esposa mandona. Minha irmã, divorciada e feliz no Rio de Janeiro, que é o melhor lugar para se viver divorciada e feliz.
"O que estou fazendo aqui?", foi a pergunta que me fiz, no silêncio da casa deserta.
2- Acordei de bom humor, apesar do corpo dolorido pela noite passada num colchão velho. Um pedaço de espuma que não vinha sendo usado há duas décadas pelo menos. O dia amanheceu ensolarado. Tentei ignorar o cheiro embolorado da casa enquanto caminhava para a varanda.
"O que estou fazendo aqui?", perguntei-me de novo, em silêncio. "Verificando o espólio do velho", respondi. "Só isso? Não". Não precisava voltar para casa. Um advogado cuidaria da herança sem problemas, limitando tudo a uma resma de papeis e assinaturas. Mas eu precisava vir. Precisava rever essas paredes, esses móveis, esses objetos. Precisava rever a mim mesmo. E, quem sabe, nesse reencontro descobrir o que quero para minha vida.
Não me entenda mal. Profissionalmente estou bem resolvido já há algum tempo. Cirurgião-chefe de um dos hospitais mais respeitados do país. Conta bancária altamente satisfatória, para dizer o mínimo. Rotina de palestras no Brasil e no exterior, pacientes fazendo fila para passar por minhas hábeis mãos. Sou o que se pode chamar de sucesso. Arrisco dizer que fui mais longe do que meu pai jamais foi na sua carreira de médico. Mas isso não resolve o vazio que ainda sinto sempre que penso no que estou fazendo dos meus dias. Claro que não faz sentido buscar respostas nessas ruínas do passado. Ou será que faz…?
Resolvi não pensar naquilo tudo naquele momento. Dia de sol, cidade a meus pés. Passear, aproveitar. Decidi visitar a Torre.
3- A Torre é uma formação rochosa que se tornou o principal ponto turístico da cidade. Um platô de rocha vulcânica e linhas simétricas, como se tivessem sido esculpidas à mão. A escalada é simples. Há muitos anos, a prefeitura instalou aros de ferro fundido que servem de apoio para mãos e pés, facilitando a subida… desde que você não tenha medo de altura. O único ponto crítico dessa aventura é a "volta dos covardes". Uma curva onde a protuberância da rocha bloqueia o caminho. Nesse local a escalada se torna quase negativa, e quem se arrisca a passar por ali tem a impressão de que vai andar de cabeça para baixo, solto no espaço. Mas assim que se vence o medo do primeiro degrau, percebe-se que a inclinação não é tão acentuada. Uma ilusão aumentada pelo medo.
Na minha infância, subia a trilha íngreme de dois quilômetros e os quinhentos degraus de ferro em menos de três horas. Hoje, aos quarenta e tantos anos, o desafio não é tão fácil. Estranhamente, o aspecto mais fácil da escalada é superar a "volta dos covardes". Basta vencer o medo uma vez para o encanto se desfazer, e o que parecia ser um grande feito se torna apenas parte da subida, alguns passos necessários para chegar ao topo. É como a vida. Mas não vou filosofar sobre isso, não agora.
Continuei firme na subida. Cumpri à risca tudo o que sempre preconizei para meus pacientes: vida saudável, boa alimentação, exercícios regulares. O resultado, com alguma satisfação, notei durante o caminho para o alto da Torre.
Logo depois da "volta" havia um trecho sem degraus de ferro. Uma trilha na rocha que se embrenhava por uma pequena mata de arbustos e árvores baixas. A trilha é limpa, embora estreita. A vegetação em volta é fechada, não permite ver nem o paredão à direita, nem o abismo à esquerda. No meu caminho surgiu então um obstáculo inesperado. Um nevoeiro, em pleno dia de sol. Olhei para o alto, notei que o dia continuava ensolarado acima daquela bruma misteriosa. Era como um fragmento de nuvem preso à montanha. Olhei adiante. O nevoeiro se adensava misteriosamente, ali. Eu estava a uns oitenta metros do solo, faltando pouco mais de trinta metros para o topo. Decidi seguir em frente, aquela nuvem não podia se estender por uma grande distância. Mas algo me dizia que aquilo não era natural. Eu estava acostumado a ver nuvens baixas e solitárias, na minha infância passada inteira numa cidade montanhosa. Mas nunca vi algo como aquilo. Era como se alguém tivesse deliberadamente colocado um chumaço gigante de algodão no meu caminho.
Fui adiante. Logo penetrei aquela nuvem estranha. Só conseguia ver a trilha e os arbustos mais próximos. Avancei. O nevoeiro não se dissipava. Alguns metros mais, olhei para trás. Parecia um caminho sem volta, a bruma interditando qualquer tentativa de retorno. Para trás não conseguia enxergar nem mesmo o chão sob meus pés. Como andar naquele sentido sem correr um risco enorme de me precipitar montanha abaixo? Mas aquilo não me intimidou. Pelo contrário, de alguma forma, senti-me motivado a continuar. E fui em frente.
Estranhamente a névoa não era tão fechada à minha frente. Era como um livro que se fechava atrás de mim, deixando como única opção a página seguinte. Isso me obrigou a confirmar a decisão de avançar.
O nevoeiro era úmido e pegajoso. Parecia grudar na minha pele. A temperatura baixou consideravelmente. O frio deixava em mim uma impressão de desalento, abandono. Sozinho no alto daquela montanha, cercado pela bruma, pensei que se o desespero tivesse uma forma, seria aquela. O medo, em vez de me paralisar, me instigou ainda mais.
De repente notei o que me pareceu ser um vulto, alguns passos adiante de mim, envolto pela nuvem. Parei, surpreendido, e aguardei alguns instantes. O vulto não se mexia. "Olá", eu disse, com voz insegura. Não houve resposta. Começava a imaginar qual seria a intenção daquele sujeito quando ouvi claramente um voz rouca, fria, monótona e lenta: "não entre no prédio". Eu ia perguntar o que aquilo significava, quando o vulto se moveu rapidamente para a esquerda, dando a impressão de saltar no abismo. Fui até onde aquela sombra estava, olhei para baixo, mas era impossível enxergar além de dois palmos. Nenhum grito durante a suposta queda, nenhum lamento… Quem seria o dono daquela voz sepulcral? Ou teria sido fruto da minha imaginação?
Ainda estava nessas dúvidas quando o nevoeiro desapareceu, tão repentinamente quanto tinha se formado. Pude ver o topo da Torre, a menos de dez metros de onde eu estava. Continuei subindo, calado e pensativo. Lá no alto, o dia se apresentava em todo seu resplendor. Mas havia algo de melancólico naquela luz. Algo frio e inexplicável.
Enxuguei o sereno deixado no meu rosto por aquela estranha nuvem. Quando o sol iniciava sua última volta antes do mergulho no horizonte, retomei a trilha para descer.
Não houve surpresas no caminho de volta. Muito menos sinal de algum acidente. Nada que indicasse que alguém tivesse caído. A cada passo que eu dava em direção ao carro, mais me convencia de que tinha imaginado aquele encontro bizarro. Resolvi ignorar o caso.
4- A segunda noite passada na casa onde cresci foi bem melhor. Troquei os lençóis, contratei uma faxineira para fazer uma limpeza geral, coloquei o lixo todo pra fora. Fui premiado com um sono profundo e reconfortante.
O único som perceptível era o canto estridente de um bando de maritacas sobrevoando o bairro. Senti-me grato por aquela solidão voluntária a que me impus. Olhei pela janela do meu quarto. As árvores próximas estavam repletas de aves saudando o dia com seus cantos, as penas estendidas para o sol. Mais adianta o morro onde brincava com meu irmão na infância se espalhava pela paisagem. Ao longe, podia ver a avenida que levava até a Santa Casa. A instituição que meu pai administrou por mais de vinte anos. O primeiro hospital em que trabalhei.
No passado aquela avenida foi muito utilizada por gente procurando tratamento no hospital. A tuberculose era o mal mais frequente quando meu pai começou a trabalhar ali, ainda como residente, muito antes de conhecer minha mãe. Os pacientes vinham de todas as partes do estado e até de outras regiões do país, atraídos pelos benefícios do ar puro e gelado da cidade. Anos depois, quando novas técnicas aperfeiçoaram o tratamento da tuberculose, meu pai já fazia parte da diretoria da Santa Casa. Foi dele a ideia de mudar a linha de atendimento da instituição, transformando-a num centro psiquiátrico. Naquele tempo as práticas bizarras do eletrochoque e do confinamento em câmaras herméticas ainda eram largamente utilizados. Aquele lugar povoou alguns dos piores pesadelos da minha infância. Uma vez folheei um grande livro que meu pai tinha deixado sobre a mesa da sala. Ele trazia detalhes dos procedimentos "terapeuticos" usados nos tratamentos de males psíquicos. Havia fotos de eletrodos, descrições detalhadas para aplicação dos choques e de banhos gelados. Desde então, o prédio onde meu pai trabalhava passou a se tornar um "castelo de horrores" para mim. Imaginava os gritos desesperados dos pacientes, a dor, o sofrimento além do suportável. Nunca entendi como esperavam "curar" alguma coisa com aqueles métodos.
Nunca tive coragem de discutir isso com meu pai, mesmo depois que me tornei médico e passei a trabalhar com ele no hospital. Na época a instituição já não era mais uma clínica psiquiátrica, e sim o maior hospital da região, dedicado aos mais variados males humanos.
Como a maioria dos estudantes de medicina, comecei minha residência médica no pronto-socorro. "O Front", como dizia meu pai. Nunca tive qualquer tipo de privilégio por ser filho do diretor-presidente. Foram dois anos em que o terror tomou forma em minha mente. Era feito de cortes, fraturas, queimaduras, envenenamentos e toda forma imaginável de sofrimento do corpo. Uma temporada no inferno que criou uma armadura na minha alma, permitindo que eu evoluísse na ciência médica sem me tornar suscetível demais ao sofrimento dos pacientes. Com o tempo a gente vai deixando de se impressionar com a dor.
Depois de formado fui me especializar em cirurgia cardíaca na Suíça. Lá conheci minha esposa. Casamos por lá mesmo. Nunca tivemos filhos. Éramos felizes, ao nosso jeito meio tranquilo e sem paixão. Até a morte dela, num acidente de carro. Ela estava com um "colega". Um colega íntimo, como vim a descobrir depois. Os dois bateram de frente contra um caminhão quando voltavam de um de seus encontros românticos. Senti desespero por um segundo, tristeza por alguns dias, ódio dela por muito tempo… até que os sentimentos se reduziram a essa lembrança meio indiferente que carrego hoje. Às vezes me pergunto se ela realmente existiu na minha vida, ou é apenas uma memória fantasiosa criada para ocupar minha cabeça nas tardes de chuva. De qualquer forma as fotos dela que ainda guardo me provam que de fato aquela mulher esteve ao meu lado por uma parte da minha jornada nesse mundo.
Quando o ódio deu lugar ao vazio, a vida na Europa se tornou insuportável. Os lugares, as pessoas e as situações me pareceram repentinamente sem sentido. O resultado desse sentimento é minha presença aqui, agora, olhando pela janela do meu quarto de infância.
Daqui consigo ver, por trás do morro, o telhado do grande prédio onde funcionava a Santa Casa. Buracos enormes se mostram entre as telhas velhas, como bocas tentando engolir o céu. Uma das janelas mais altas permanece com a folhas de madeira fechadas, apodrecendo.
Fiquei observando o velho prédio por muitas horas. Perdi a noção do tempo. Quando dei por mim a tarde já ia alta. Como os pensamentos conseguem nos arrastar pelo tempo dessa forma? Horas se tornam minutos, anos passados se tornam "ontem".
Saí do quarto, atravessei a sala e fui para fora. O entardecer estava agradável. Poucas nuvens no céu, uma brisa refrescante sacudindo de leve o alto dos pinheiros. Decidi fazer uma caminhada até a antiga Santa Casa. Ver de mais perto as ruínas de uma parte da minha história. Caminhei a passos lentos pelas ruas tão minhas conhecidas. Mudaram pouco. Algumas casas novas, outras que deixaram de existir, mas basicamente a mesma arquitetura, apesar de tanto tempo decorrido desde a última vez que passei por ali. As árvores margeando o caminho tornavam o passeio ainda mais sedutor.
Para chegar à Santa Casa era preciso vencer uma íngreme ladeira asfaltada. Os primeiros cem metros eram em linha reta, até uma curva acentuada à direita. Quando cheguei nesse ponto percebi que o caminho estava bloqueado - talvez já há muito tempo - por galhos, folhas ainda verdes de árvores, e um grande tronco atravessado na rua. Ao lado do caminho a mata fechada impedia qualquer tentativa de passagem. O mais lógico seria voltar dali mesmo. Mas por algum motivo que jamais entenderei, não agi de forma lógica.
Aproximei-me do obstáculo, procurando uma rota para continuar a minha pequena viagem. O tronco não era tão alto. Estava firme no solo, sem risco de rolar ao meu peso. Ciente disso, apoiei minhas mãos sobre ele e tentei enganchar meus pés na casca da árvore. Impossível, não havia saliência suficiente para eu me lançar sobre o tronco. Olhei em volta. Notei um espaço estreito entre a ponta da tora de madeira no lado direito e o barranco que margeava a rua. Esgueirei-me por ali e, não sem me sujar de terra, consegui passar para o outro lado.
A partir dali o asfalto se tornava um amontoado de pedaços soltos, com grandes vãos de terra entre eles. O mato se tornava mais denso em redor, mas o caminho ainda era bem visível. Daquele local eu conseguia ver o teto do hospital sobrepujando os maiores pinheiros, como se quisesse atingir as nuvens. Não havia erro, bastava continuar andando.
A ladeira ficava mais acentuada à medida que eu avançava, e o matagal em volta parecia mais e mais fechado. Logo o que era uma rua de asfalto tornou-se uma estreita trilha com pedras soltas. Insetos começaram a me atacar. As picadas irritavam minha pele e o zunido não abandonava meus ouvidos durante todo o caminho. O clima ficava mais abafado com o cair da tarde. Sentia o suor ensopando minha camisa e grudando-a às minhas costas. Tudo isso me irritava profundamente e fazia imaginar que a tal excursão não fora uma boa ideia. Mas já que eu estava ali, melhor terminar o que tinha começado. Com esse pensamento, eu prosseguia. O telhado, visto entre as copas de pinheiros, servia de guia.
Meia hora havia se passado desde o tronco caído. Repentinamente, a mata se abria numa clareira, onde se via o que restou de um pátio de paralelepípedos à frente do edifício da Santa Casa. Parei ali para observar a fachada. Duas pilastras suportavam uma velha cobertura de concreto em frente à larga porta principal. Várias janelas se estendiam dos dois lados dessa porta, e formavam fileiras de alto a baixo na frente do prédio. Eram cinco andares recortados de janelas. No último andar também havia sacadas nas janelas centrais, mais amplas que as outras. Algumas janelas estavam abertas, outras quebradas, outras fechadas mostrando a madeira atacada por carunchos e cupins. A tinta descascada expunha tijolos roídos pelo tempo e completava o quadro de decrepitude do lugar.
Um prédio muito familiar para mim. Um sentimento de nostalgia se abateu sobre meu espírito ao ver aquela ruína. Lembrei-me dos tempos de agitação, quando aquele era o único hospital da cidade. Parecia impossível uma mudança tão drástica.
De repente notei a mudança no tempo. Céu fechado, vento cada vez mais forte, o estrondo de um trovão prenunciando borrasca. Perto de mim um galho envergou sob o peso do vento até se partir e voar, atingindo o pátio à minha frente. Logo senti os primeiros pingos de chuva. Gostas grandes, pesadas e esparsas que atingiam o calçamento como bolas de vidro. Foram se tornando cada vez mais frequentes até se transformarem numa chuva forte.
Voltar não era uma alternativa. Corri para baixo da cobertura de concreto, na frente da porta principal, e fiquei observando a tempestade. Como o tempo mudou tão rápido? Ou fui eu que não notei a mudança gradativa, absorto em meus pensamentos?
Depois de alguns minutos olhei para a porta atrás de mim. No lugar da maçaneta havia uma corrente grossa e um cadeado… Inspecionei com mais atenção e vi que ele estava aberto. Como a chuva não dava sinais de que iria diminuir de intensidade, resolvi entrar.
Apenas os relâmpagos jogavam alguma luz sobre o hall do edifício. Reconheci o balcão da recepção à minha esquerda e três velhas poltronas à direita, onde as pessoas esperavam atendimento. Ainda não havia anoitecido mas a escuridão era completa quando os relâmpagos se extinguiam. Só a luz da tempestade me permitia ver alguma coisa.
Acionei meu celular para conseguir alguma iluminação extra e fui até a caixa de força na parede dos fundos do hall. Tapei o nariz, enojado. Excrementos humanos mostravam que aquele prédio havia sido visitado há pouco tempo. Acionei a chave de força, com cuidado para não pisar na sujeira. Imediatamente um ruído de pistões batendo num velho motor se fez ouvir… O som cadenciado foi acelerando o ritmo até se transformar num zumbido; a luz de emergência se acendeu, jogando sobre o ambiente um tom esverdeado e sombrio. Fiquei surpreso pelo velho gerador a diesel ainda funcionar o suficiente para ativar aquela fonte de luz. Uma sorte.
No precário conforto daquela penumbra, sentei-me numa das velhas poltronas da recepção. Lá fora a chuva caía forte. O vento açoitava a porta da frente sem piedade. O som dos trovões e da água escorrendo nas janelas de madeira me mantinha entretido. Logo virou uma barulhenta canção de ninar, embalada pelo mormaço que imperava na sala apesar da tempestade.
Foi quando ouvi um barulho que parecia vir do corredor. Levantei-me e abri a porta de vidro - misteriosamente intacta - que separava a recepção do resto do hospital. Olhei para a esquerda e notei uma luz diferente. Superior à iluminação esverdeada de emergência, mais branca e radiante. Ela bruxuleava, inconstante. Tomado de curiosidade, decidi me aproximar dela e verificar.
Enquanto me dirigia para lá, ouvi algo parecido com passos logo atrás de mim. Será que algum mendigo estava abrigado ali? Olhei para trás e vi uma mulher. Parecia usar uma camisola branca com uma mancha escura na gola e na frente. Parei bruscamente, assustado."Olá", eu disse. "A chuva nos prendeu aqui, não?". Sem resposta. A mulher vinha lentamente em minha direção. Arrastava os pés sem ânimo, mas sem vacilos. De repente um relâmpago que se seguiu a um trovão mais forte me fez ver o rosto dela… O rosto, meu Deus. Parecia morbidamente pálido contra a luz do relâmpago. A mancha preta na camisola branca me pareceu uma nódoa de sangue coagulado. Os olhos muito abertos eram vazios e rodeados de profundas olheiras negras. Um rosto assustador, mesmo para um homem de ciência como eu. Dominei meu medo e preparei-me para falar com ela novamente, quando fui interrompido por outro relâmpago. A luz de emergência piscou algumas vezes, apagou-se por um segundo que pareceu eterno e, quando voltou a brilhar, revelou o corredor absolutamente vazio. Nem sinal da estranha mulher que estava ali a menos de um instante. Intrigado, abri as portas das salas no ponto onde estava aquele espectro. Vazias. Nem sinal da minha estranha companheira. Um incontrolável suor frio escorreu pela minha fronte. Inevitável.
Quando olhei de novo para a luz branca no fim do corredor, não pude acreditar no que se revelou à minha frente. O hospital estava abarrotado de gente. Enfermeiras apressadas, macas sendo empurradas para o elevador, médicos com planilhas nas mãos e estetoscópios no pescoço. Fechei os olhos, dizendo a mim mesmo que aquilo tudo era fruto da minha imaginação. Abri novamente os olhos e quase bati num auxiliar apressado, que se virou para mim irritado e gritou: "olha por onde anda, rapaz! Tá todo mundo ocupado aqui, se quiser ficar meditando, vai pro dormitório"… Continuei andando para a fonte de luz, que agora se revelava a porta do elevador maior, usado para transportar pacientes de um andar para o outro. Entrei, sem nem mesmo saber por que fazia aquilo. Imediatamente a porta se fechou atrás de mim. Olhei para o painel e vi a luz do quinto - e último - andar se acender. "Estou louco. É isso", pensei. A subida foi rápida, a porta se abriu e eu me vi no antigo centro cirúrgico do hospital. Tudo como era há mais de vinte anos, quando eu trabalhava ali como médico residente. A mesma estrutura, os mesmos funcionários, as três salas de cirurgia dispostas uma ao lado da outra… A sala três… a fatídica sala três.
Caminhei lentamente até ela. Pela janela de vidro na porta pude ver que uma cirurgia estava em andamento. Mais uma vez o suor e o medo se espalharam pelo meu corpo. Na equipe pude reconhecer o olhar severo, as sobrancelhas grossas, a testa enrugada… a expressão atenta do meu falecido pai. Sim, ele estava ali, operando como se ainda fosse o diretor presidente do hospital. Mas ele gritava com outro membro da equipe. Gesticulava furiosamente, enquanto tentava estancar o que parecia ser uma hemorragia no paciente. Pude ouvir seus gritos, e foi como uma lembrança ruim. "Você matou esse homem, seu incompetente. Você matou ele. Tenho vergonha de te chamar de filho".
Não pude acreditar. Ao lado de meu pai, eu vi a mim mesmo, trêmulo, suarento, apavorado. Afastei-me (?), ou melhor, o jovem que eu era se afastou da mesa de cirurgia e vomitou copiosamente a um canto. "Alguém tira esse estrume daqui. Só faz atrapalhar. Enfermeira, registre a hora do óbito. Seis e meia. Doze de dezembro".
Ali estava, diante de mim, o pior momento da minha vida sendo revivido. O dia em que eu tive que fazer uma cirurgia de emergência numa vítima de assalto. Eu, recém-formado, único cirurgião presente naquele momento. Os outros estavam ocupados com casos graves e igualmente urgentes. O único médico mais experiente que poderia me ajudar só chegaria uma hora depois. Estava preso no trânsito, a cidade era um caos por causa de uma tempestade - muito parecida com essa de agora. O único médico que poderia me ajudar… meu pai. Só conseguiu chegar a tempo de ver os meus erros, minha imperícia. Ele assinou o atestado de óbito. Ele assumiu o erro. Salvou a carreira do filho iniciante. Foi este o incidente que fez com que eu buscasse sempre saber mais, conhecer mais, pesquisar. Foi o que fez de mim um dos cinco mais respeitados cirurgiões do mundo hoje. Mas foi também o erro que me condenou a uma eterna insatisfação comigo mesmo, e a um infinito peso na consciência. Foi o erro que fez com que, apesar de todos os meus esforços, eu nunca conseguisse o respeito, ou mesmo o carinho do meu pai.
Sofrer aquilo tudo de novo era demais para mim.
De repente ouvi de novo uma voz rouca e familiar. A mesma voz que me alertou no meio do nevoiero, quando subi a Torre. "Eu te disse pra não entrar aqui", exclamou tristemente. Olhei para trás e reconheci o rosto do paciente que morreu naquela cirurgia, tanto tempo atrás. Ele ainda usava o avental, o peito trazia uma enorme chaga mal suturada com pontos enormes, por onde vertia um filete de sangue e pus. Um cheiro de coisa podre invadiu meu nariz.
Nunca soube o nome daquele homem. Nunca tive coragem de pesquisar sua vida, saber se deixou filhos, amigos, amantes. Mas ele estava ali. De nada adiantou fugir, não é? O erro me encontrou e firmou minha condenação.
Sem dizer nada, o cadáver apontou para a porta do elevador. Fui até lá, cambaleando, olhos embaçados de lágrimas. A porta se abriu. À minha frente, o fosso vazio do elevador e a escuridão absoluta. Um passo, tudo se resume a isso. Um passo.
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O corpo do famoso médico só foi encontrado cinco dias depois. Um andarilho que invadiu o velho prédio da Santa Casa para dormir sentiu um fedor diferente da carniça com que já estava acostumado, foi até o local onde ficava o elevador e encontrou o cadáver, já apodrecido. A polícia fez uma rápida investigação, e não teve indício algum que indicasse homicídio. Contra todas as probabilidades, foi preciso se render às evidências. O cirurgião rico e respeitado se matou. Mas o por quê desse ato desesperado, ninguém jamais ficou sabendo. Seria um gasto inútil de recursos da polícia tentar descobrir a motivação de mais um desgraçado entre tantos que existem no mundo.
No enterro, a irmã, a velha mãe e o sobrinho mais velho (os outros dois não se deram ao trabalho de comparecer) receberam as condolências de uma infinidade de amigos, colegas e ex-pacientes do respeitável doutor.
FIM
Perdi alguns segundos nessa muda contemplação antes de desligar o carro e abrir a porta. Foi como uma lufada de passado revolvendo meus cabelos que já começam a mostrar fios cinzentos. Milagrosamente o cadeado atendeu à chave que eu trazia, mesmo depois de tão longo intervalo sem ser aberto. Mas as dobradiças gemeram insistentemente, num grito agudo e metálico, enquanto abri o portão.
Subi os degraus que levavam à sala, abri um outro portão de ferro, acesso à varanda, e girei a chave na porta. Um cheiro de coisa velha e poeira estagnada invadiu minhas narinas. Alguns lençóis brancos cobriam os móveis e objetos, dando ao ambiente uma aparência assustadora. Não consegui evitar um calafrio, mesmo estando num local tão familiar.
Minha casa. Vinte anos depois.
Removi um dos lençóis e me sentei sobre o sofá da sala, sem me incomodar com a poeira pairando em meu redor. Entreguei-me a lembranças: meu irmão almoçando com o prato de comida na mão, em plena sala, enquanto assistia TV… parecia que ele estava ali, na minha frente, naquele exato momento. Minha mãe fazendo os trabalhos domésticos e rindo sempre que eu soltava algum comentário mais espirituoso sobre a programação televisiva do fim de semana: "bom motivo pra sair de casa e escapar de ver esse lixo", eu dizia. E ela deitava a cabeça para trás num espasmo de bom humor.
Sim, parecia possível ouvir os latidos da Laika, a pastora alemã de meu irmão, estranhando qualquer movimento no jardim. E os gritos insistentes dos meus sobrinhos, filhos de minha irmã, brincando de pega-pega na rua em frente à casa. Assim ficavam, os dois meninos e a menina, até que o cheiro do bolo preparado pela avó chamava a atenção, e os pequenos abriam mão da brincadeira por um pedaço, geralmente acompanhado de leite com chocolate.
Nem mesmo a sisudez do meu pai, estirado na poltrona perto da lareira, tirava o clima de festa desta casa naqueles tempos. Ele ficava ali, olhos meio avermelhados do vinho, a barriga proeminente apontando para o teto assim como os dedos dos pés calçados com sandálias. A boca fechada numa curva para baixo, as sobrancelhas encontrando-se raivosamente no meio da testa, um ou outro resmungo na garganta, ininteligível. Mastigando memórias, era como ele ficava. E pela cara, não eram memórias saborosas.
Só quando os netos entravam, numa algaravia desvairada em direção à cozinha, podia-se notar algo parecido com um sorriso naquele semblante fechado. Mas isso era só por um segundo, antes da infalível bronca que se seguia: "que bagunça, não se tem mais paz nem dentro de casa! Limpem os sapatos, malcriados!". Minha irmã nem se incomodava mais com essas reprimendas, tão comuns e rotineiras se tornaram. Limitava-se a dar um beijo na fronte do velho, que recebia o agrado fingindo contragosto, e gritava para os filhos: "obedeçam seu avô"… mas a essa altura as crianças já estavam na cozinha se banqueteando com o bolo da avó sorridente.
Foi num dia mais ou menos assim que meu irmão se aproximou de mim e disse, alegre, que iria para a Europa no semestre seguinte. "Como assim, abandonar a faculdade?", surpreendi-me. "Não fui talhado para o Direito, meu caro", ele respondeu. "Pra falar, a verdade, não sei pra que fui talhado. Não acredito nesse negócio de vocação. Vou viajar, conhecer o mundo, vejo se descubro o que quero fazer da vida". Olhei para o meu pai, imaginando o desapontamento dele ao saber da notícia. Meu irmão descobriu meus pensamentos imediatamente, e falou como se estivesse respondendo a eles: "Não vou usar o dinheiro do velho. Vou vender meu carro, vendo o computador também… fico morando em albergues, mochileiro. Cara, tenho 23 anos, é pouco tempo pra definir o meu caminho!".
Ah, se meu irmão soubesse que o que menos importava na questão era dinheiro… Nosso pai não conseguia evitar comparações entre nós dois. Eu, dois anos mais novo, já estava prestes a me formar em medicina. Ele, ainda sem uma profissão definida. Para o velho, isso era o sinal mais claro e incontestável de vagabundice. Um crime que ele não perdoava. Meu pai gastaria toda a fortuna arrematada na carreira de médico, se fosse para o filho mais velho ir à Europa atrás de uma especialização ou uma carreira… Eu, pelo contrário, mesmo seguindo a profissão dele, mostrando-me aplicado nos estudos, sério, competente e previsível, jamais consegui de meu pai algo mais do que um olhar enfadado, como quem dizia "não faz mais que a obrigação". Para o meu irmão, porém, o sentimento era outro. Uma reprovação sistemática e constante, que na verdade escondia toda a dor de expectativas frustradas. Nem esse sentimento eu conquistava com todo meu empenho. A mim, o que coube sempre foi a mais completa indiferença paterna.
O assalto dessas imagens, vindas de um passado que eu julgava enterrado para sempre, se esvaíram lentamente enquanto o sol se punha no horizonte. Levantei-me, espantando de minha mente o ruído dos sobrinhos bagunceiros, e fui até a janela, que abri com alguma dificuldade. Apreciei de novo aquele por do sol tantas vezes observado na minha infância. Um a um, recordei os destinos que couberam a cada um daqueles personagens familiares: a morte de meu irmão por overdose depois de horas de agonia num hospital infecto da Turquia; os sobrinhos espalhados pelo mundo, a menina seguindo uma chata e redundante carreira bancária; o garoto mais velho, em algum lugar da Argentina, trabalhando como guia de pescarias esportivas; o mais novo, casado, com filhos, com cachorro, gato, periquito e uma escravizante rotina de comerciante numa lojinha de Salvador, para onde se mudou para acompanhar a esposa mandona. Minha irmã, divorciada e feliz no Rio de Janeiro, que é o melhor lugar para se viver divorciada e feliz.
"O que estou fazendo aqui?", foi a pergunta que me fiz, no silêncio da casa deserta.
2- Acordei de bom humor, apesar do corpo dolorido pela noite passada num colchão velho. Um pedaço de espuma que não vinha sendo usado há duas décadas pelo menos. O dia amanheceu ensolarado. Tentei ignorar o cheiro embolorado da casa enquanto caminhava para a varanda.
"O que estou fazendo aqui?", perguntei-me de novo, em silêncio. "Verificando o espólio do velho", respondi. "Só isso? Não". Não precisava voltar para casa. Um advogado cuidaria da herança sem problemas, limitando tudo a uma resma de papeis e assinaturas. Mas eu precisava vir. Precisava rever essas paredes, esses móveis, esses objetos. Precisava rever a mim mesmo. E, quem sabe, nesse reencontro descobrir o que quero para minha vida.
Não me entenda mal. Profissionalmente estou bem resolvido já há algum tempo. Cirurgião-chefe de um dos hospitais mais respeitados do país. Conta bancária altamente satisfatória, para dizer o mínimo. Rotina de palestras no Brasil e no exterior, pacientes fazendo fila para passar por minhas hábeis mãos. Sou o que se pode chamar de sucesso. Arrisco dizer que fui mais longe do que meu pai jamais foi na sua carreira de médico. Mas isso não resolve o vazio que ainda sinto sempre que penso no que estou fazendo dos meus dias. Claro que não faz sentido buscar respostas nessas ruínas do passado. Ou será que faz…?
Resolvi não pensar naquilo tudo naquele momento. Dia de sol, cidade a meus pés. Passear, aproveitar. Decidi visitar a Torre.
3- A Torre é uma formação rochosa que se tornou o principal ponto turístico da cidade. Um platô de rocha vulcânica e linhas simétricas, como se tivessem sido esculpidas à mão. A escalada é simples. Há muitos anos, a prefeitura instalou aros de ferro fundido que servem de apoio para mãos e pés, facilitando a subida… desde que você não tenha medo de altura. O único ponto crítico dessa aventura é a "volta dos covardes". Uma curva onde a protuberância da rocha bloqueia o caminho. Nesse local a escalada se torna quase negativa, e quem se arrisca a passar por ali tem a impressão de que vai andar de cabeça para baixo, solto no espaço. Mas assim que se vence o medo do primeiro degrau, percebe-se que a inclinação não é tão acentuada. Uma ilusão aumentada pelo medo.
Na minha infância, subia a trilha íngreme de dois quilômetros e os quinhentos degraus de ferro em menos de três horas. Hoje, aos quarenta e tantos anos, o desafio não é tão fácil. Estranhamente, o aspecto mais fácil da escalada é superar a "volta dos covardes". Basta vencer o medo uma vez para o encanto se desfazer, e o que parecia ser um grande feito se torna apenas parte da subida, alguns passos necessários para chegar ao topo. É como a vida. Mas não vou filosofar sobre isso, não agora.
Continuei firme na subida. Cumpri à risca tudo o que sempre preconizei para meus pacientes: vida saudável, boa alimentação, exercícios regulares. O resultado, com alguma satisfação, notei durante o caminho para o alto da Torre.
Logo depois da "volta" havia um trecho sem degraus de ferro. Uma trilha na rocha que se embrenhava por uma pequena mata de arbustos e árvores baixas. A trilha é limpa, embora estreita. A vegetação em volta é fechada, não permite ver nem o paredão à direita, nem o abismo à esquerda. No meu caminho surgiu então um obstáculo inesperado. Um nevoeiro, em pleno dia de sol. Olhei para o alto, notei que o dia continuava ensolarado acima daquela bruma misteriosa. Era como um fragmento de nuvem preso à montanha. Olhei adiante. O nevoeiro se adensava misteriosamente, ali. Eu estava a uns oitenta metros do solo, faltando pouco mais de trinta metros para o topo. Decidi seguir em frente, aquela nuvem não podia se estender por uma grande distância. Mas algo me dizia que aquilo não era natural. Eu estava acostumado a ver nuvens baixas e solitárias, na minha infância passada inteira numa cidade montanhosa. Mas nunca vi algo como aquilo. Era como se alguém tivesse deliberadamente colocado um chumaço gigante de algodão no meu caminho.
Fui adiante. Logo penetrei aquela nuvem estranha. Só conseguia ver a trilha e os arbustos mais próximos. Avancei. O nevoeiro não se dissipava. Alguns metros mais, olhei para trás. Parecia um caminho sem volta, a bruma interditando qualquer tentativa de retorno. Para trás não conseguia enxergar nem mesmo o chão sob meus pés. Como andar naquele sentido sem correr um risco enorme de me precipitar montanha abaixo? Mas aquilo não me intimidou. Pelo contrário, de alguma forma, senti-me motivado a continuar. E fui em frente.
Estranhamente a névoa não era tão fechada à minha frente. Era como um livro que se fechava atrás de mim, deixando como única opção a página seguinte. Isso me obrigou a confirmar a decisão de avançar.
O nevoeiro era úmido e pegajoso. Parecia grudar na minha pele. A temperatura baixou consideravelmente. O frio deixava em mim uma impressão de desalento, abandono. Sozinho no alto daquela montanha, cercado pela bruma, pensei que se o desespero tivesse uma forma, seria aquela. O medo, em vez de me paralisar, me instigou ainda mais.
De repente notei o que me pareceu ser um vulto, alguns passos adiante de mim, envolto pela nuvem. Parei, surpreendido, e aguardei alguns instantes. O vulto não se mexia. "Olá", eu disse, com voz insegura. Não houve resposta. Começava a imaginar qual seria a intenção daquele sujeito quando ouvi claramente um voz rouca, fria, monótona e lenta: "não entre no prédio". Eu ia perguntar o que aquilo significava, quando o vulto se moveu rapidamente para a esquerda, dando a impressão de saltar no abismo. Fui até onde aquela sombra estava, olhei para baixo, mas era impossível enxergar além de dois palmos. Nenhum grito durante a suposta queda, nenhum lamento… Quem seria o dono daquela voz sepulcral? Ou teria sido fruto da minha imaginação?
Ainda estava nessas dúvidas quando o nevoeiro desapareceu, tão repentinamente quanto tinha se formado. Pude ver o topo da Torre, a menos de dez metros de onde eu estava. Continuei subindo, calado e pensativo. Lá no alto, o dia se apresentava em todo seu resplendor. Mas havia algo de melancólico naquela luz. Algo frio e inexplicável.
Enxuguei o sereno deixado no meu rosto por aquela estranha nuvem. Quando o sol iniciava sua última volta antes do mergulho no horizonte, retomei a trilha para descer.
Não houve surpresas no caminho de volta. Muito menos sinal de algum acidente. Nada que indicasse que alguém tivesse caído. A cada passo que eu dava em direção ao carro, mais me convencia de que tinha imaginado aquele encontro bizarro. Resolvi ignorar o caso.
4- A segunda noite passada na casa onde cresci foi bem melhor. Troquei os lençóis, contratei uma faxineira para fazer uma limpeza geral, coloquei o lixo todo pra fora. Fui premiado com um sono profundo e reconfortante.
O único som perceptível era o canto estridente de um bando de maritacas sobrevoando o bairro. Senti-me grato por aquela solidão voluntária a que me impus. Olhei pela janela do meu quarto. As árvores próximas estavam repletas de aves saudando o dia com seus cantos, as penas estendidas para o sol. Mais adianta o morro onde brincava com meu irmão na infância se espalhava pela paisagem. Ao longe, podia ver a avenida que levava até a Santa Casa. A instituição que meu pai administrou por mais de vinte anos. O primeiro hospital em que trabalhei.
No passado aquela avenida foi muito utilizada por gente procurando tratamento no hospital. A tuberculose era o mal mais frequente quando meu pai começou a trabalhar ali, ainda como residente, muito antes de conhecer minha mãe. Os pacientes vinham de todas as partes do estado e até de outras regiões do país, atraídos pelos benefícios do ar puro e gelado da cidade. Anos depois, quando novas técnicas aperfeiçoaram o tratamento da tuberculose, meu pai já fazia parte da diretoria da Santa Casa. Foi dele a ideia de mudar a linha de atendimento da instituição, transformando-a num centro psiquiátrico. Naquele tempo as práticas bizarras do eletrochoque e do confinamento em câmaras herméticas ainda eram largamente utilizados. Aquele lugar povoou alguns dos piores pesadelos da minha infância. Uma vez folheei um grande livro que meu pai tinha deixado sobre a mesa da sala. Ele trazia detalhes dos procedimentos "terapeuticos" usados nos tratamentos de males psíquicos. Havia fotos de eletrodos, descrições detalhadas para aplicação dos choques e de banhos gelados. Desde então, o prédio onde meu pai trabalhava passou a se tornar um "castelo de horrores" para mim. Imaginava os gritos desesperados dos pacientes, a dor, o sofrimento além do suportável. Nunca entendi como esperavam "curar" alguma coisa com aqueles métodos.
Nunca tive coragem de discutir isso com meu pai, mesmo depois que me tornei médico e passei a trabalhar com ele no hospital. Na época a instituição já não era mais uma clínica psiquiátrica, e sim o maior hospital da região, dedicado aos mais variados males humanos.
Como a maioria dos estudantes de medicina, comecei minha residência médica no pronto-socorro. "O Front", como dizia meu pai. Nunca tive qualquer tipo de privilégio por ser filho do diretor-presidente. Foram dois anos em que o terror tomou forma em minha mente. Era feito de cortes, fraturas, queimaduras, envenenamentos e toda forma imaginável de sofrimento do corpo. Uma temporada no inferno que criou uma armadura na minha alma, permitindo que eu evoluísse na ciência médica sem me tornar suscetível demais ao sofrimento dos pacientes. Com o tempo a gente vai deixando de se impressionar com a dor.
Depois de formado fui me especializar em cirurgia cardíaca na Suíça. Lá conheci minha esposa. Casamos por lá mesmo. Nunca tivemos filhos. Éramos felizes, ao nosso jeito meio tranquilo e sem paixão. Até a morte dela, num acidente de carro. Ela estava com um "colega". Um colega íntimo, como vim a descobrir depois. Os dois bateram de frente contra um caminhão quando voltavam de um de seus encontros românticos. Senti desespero por um segundo, tristeza por alguns dias, ódio dela por muito tempo… até que os sentimentos se reduziram a essa lembrança meio indiferente que carrego hoje. Às vezes me pergunto se ela realmente existiu na minha vida, ou é apenas uma memória fantasiosa criada para ocupar minha cabeça nas tardes de chuva. De qualquer forma as fotos dela que ainda guardo me provam que de fato aquela mulher esteve ao meu lado por uma parte da minha jornada nesse mundo.
Quando o ódio deu lugar ao vazio, a vida na Europa se tornou insuportável. Os lugares, as pessoas e as situações me pareceram repentinamente sem sentido. O resultado desse sentimento é minha presença aqui, agora, olhando pela janela do meu quarto de infância.
Daqui consigo ver, por trás do morro, o telhado do grande prédio onde funcionava a Santa Casa. Buracos enormes se mostram entre as telhas velhas, como bocas tentando engolir o céu. Uma das janelas mais altas permanece com a folhas de madeira fechadas, apodrecendo.
Fiquei observando o velho prédio por muitas horas. Perdi a noção do tempo. Quando dei por mim a tarde já ia alta. Como os pensamentos conseguem nos arrastar pelo tempo dessa forma? Horas se tornam minutos, anos passados se tornam "ontem".
Saí do quarto, atravessei a sala e fui para fora. O entardecer estava agradável. Poucas nuvens no céu, uma brisa refrescante sacudindo de leve o alto dos pinheiros. Decidi fazer uma caminhada até a antiga Santa Casa. Ver de mais perto as ruínas de uma parte da minha história. Caminhei a passos lentos pelas ruas tão minhas conhecidas. Mudaram pouco. Algumas casas novas, outras que deixaram de existir, mas basicamente a mesma arquitetura, apesar de tanto tempo decorrido desde a última vez que passei por ali. As árvores margeando o caminho tornavam o passeio ainda mais sedutor.
Para chegar à Santa Casa era preciso vencer uma íngreme ladeira asfaltada. Os primeiros cem metros eram em linha reta, até uma curva acentuada à direita. Quando cheguei nesse ponto percebi que o caminho estava bloqueado - talvez já há muito tempo - por galhos, folhas ainda verdes de árvores, e um grande tronco atravessado na rua. Ao lado do caminho a mata fechada impedia qualquer tentativa de passagem. O mais lógico seria voltar dali mesmo. Mas por algum motivo que jamais entenderei, não agi de forma lógica.
Aproximei-me do obstáculo, procurando uma rota para continuar a minha pequena viagem. O tronco não era tão alto. Estava firme no solo, sem risco de rolar ao meu peso. Ciente disso, apoiei minhas mãos sobre ele e tentei enganchar meus pés na casca da árvore. Impossível, não havia saliência suficiente para eu me lançar sobre o tronco. Olhei em volta. Notei um espaço estreito entre a ponta da tora de madeira no lado direito e o barranco que margeava a rua. Esgueirei-me por ali e, não sem me sujar de terra, consegui passar para o outro lado.
A partir dali o asfalto se tornava um amontoado de pedaços soltos, com grandes vãos de terra entre eles. O mato se tornava mais denso em redor, mas o caminho ainda era bem visível. Daquele local eu conseguia ver o teto do hospital sobrepujando os maiores pinheiros, como se quisesse atingir as nuvens. Não havia erro, bastava continuar andando.
A ladeira ficava mais acentuada à medida que eu avançava, e o matagal em volta parecia mais e mais fechado. Logo o que era uma rua de asfalto tornou-se uma estreita trilha com pedras soltas. Insetos começaram a me atacar. As picadas irritavam minha pele e o zunido não abandonava meus ouvidos durante todo o caminho. O clima ficava mais abafado com o cair da tarde. Sentia o suor ensopando minha camisa e grudando-a às minhas costas. Tudo isso me irritava profundamente e fazia imaginar que a tal excursão não fora uma boa ideia. Mas já que eu estava ali, melhor terminar o que tinha começado. Com esse pensamento, eu prosseguia. O telhado, visto entre as copas de pinheiros, servia de guia.
Meia hora havia se passado desde o tronco caído. Repentinamente, a mata se abria numa clareira, onde se via o que restou de um pátio de paralelepípedos à frente do edifício da Santa Casa. Parei ali para observar a fachada. Duas pilastras suportavam uma velha cobertura de concreto em frente à larga porta principal. Várias janelas se estendiam dos dois lados dessa porta, e formavam fileiras de alto a baixo na frente do prédio. Eram cinco andares recortados de janelas. No último andar também havia sacadas nas janelas centrais, mais amplas que as outras. Algumas janelas estavam abertas, outras quebradas, outras fechadas mostrando a madeira atacada por carunchos e cupins. A tinta descascada expunha tijolos roídos pelo tempo e completava o quadro de decrepitude do lugar.
Um prédio muito familiar para mim. Um sentimento de nostalgia se abateu sobre meu espírito ao ver aquela ruína. Lembrei-me dos tempos de agitação, quando aquele era o único hospital da cidade. Parecia impossível uma mudança tão drástica.
De repente notei a mudança no tempo. Céu fechado, vento cada vez mais forte, o estrondo de um trovão prenunciando borrasca. Perto de mim um galho envergou sob o peso do vento até se partir e voar, atingindo o pátio à minha frente. Logo senti os primeiros pingos de chuva. Gostas grandes, pesadas e esparsas que atingiam o calçamento como bolas de vidro. Foram se tornando cada vez mais frequentes até se transformarem numa chuva forte.
Voltar não era uma alternativa. Corri para baixo da cobertura de concreto, na frente da porta principal, e fiquei observando a tempestade. Como o tempo mudou tão rápido? Ou fui eu que não notei a mudança gradativa, absorto em meus pensamentos?
Depois de alguns minutos olhei para a porta atrás de mim. No lugar da maçaneta havia uma corrente grossa e um cadeado… Inspecionei com mais atenção e vi que ele estava aberto. Como a chuva não dava sinais de que iria diminuir de intensidade, resolvi entrar.
Apenas os relâmpagos jogavam alguma luz sobre o hall do edifício. Reconheci o balcão da recepção à minha esquerda e três velhas poltronas à direita, onde as pessoas esperavam atendimento. Ainda não havia anoitecido mas a escuridão era completa quando os relâmpagos se extinguiam. Só a luz da tempestade me permitia ver alguma coisa. No precário conforto daquela penumbra, sentei-me numa das velhas poltronas da recepção. Lá fora a chuva caía forte. O vento açoitava a porta da frente sem piedade. O som dos trovões e da água escorrendo nas janelas de madeira me mantinha entretido. Logo virou uma barulhenta canção de ninar, embalada pelo mormaço que imperava na sala apesar da tempestade.
Foi quando ouvi um barulho que parecia vir do corredor. Levantei-me e abri a porta de vidro - misteriosamente intacta - que separava a recepção do resto do hospital. Olhei para a esquerda e notei uma luz diferente. Superior à iluminação esverdeada de emergência, mais branca e radiante. Ela bruxuleava, inconstante. Tomado de curiosidade, decidi me aproximar dela e verificar.
Enquanto me dirigia para lá, ouvi algo parecido com passos logo atrás de mim. Será que algum mendigo estava abrigado ali? Olhei para trás e vi uma mulher. Parecia usar uma camisola branca com uma mancha escura na gola e na frente. Parei bruscamente, assustado."Olá", eu disse. "A chuva nos prendeu aqui, não?". Sem resposta. A mulher vinha lentamente em minha direção. Arrastava os pés sem ânimo, mas sem vacilos. De repente um relâmpago que se seguiu a um trovão mais forte me fez ver o rosto dela… O rosto, meu Deus. Parecia morbidamente pálido contra a luz do relâmpago. A mancha preta na camisola branca me pareceu uma nódoa de sangue coagulado. Os olhos muito abertos eram vazios e rodeados de profundas olheiras negras. Um rosto assustador, mesmo para um homem de ciência como eu. Dominei meu medo e preparei-me para falar com ela novamente, quando fui interrompido por outro relâmpago. A luz de emergência piscou algumas vezes, apagou-se por um segundo que pareceu eterno e, quando voltou a brilhar, revelou o corredor absolutamente vazio. Nem sinal da estranha mulher que estava ali a menos de um instante. Intrigado, abri as portas das salas no ponto onde estava aquele espectro. Vazias. Nem sinal da minha estranha companheira. Um incontrolável suor frio escorreu pela minha fronte. Inevitável.
Quando olhei de novo para a luz branca no fim do corredor, não pude acreditar no que se revelou à minha frente. O hospital estava abarrotado de gente. Enfermeiras apressadas, macas sendo empurradas para o elevador, médicos com planilhas nas mãos e estetoscópios no pescoço. Fechei os olhos, dizendo a mim mesmo que aquilo tudo era fruto da minha imaginação. Abri novamente os olhos e quase bati num auxiliar apressado, que se virou para mim irritado e gritou: "olha por onde anda, rapaz! Tá todo mundo ocupado aqui, se quiser ficar meditando, vai pro dormitório"… Continuei andando para a fonte de luz, que agora se revelava a porta do elevador maior, usado para transportar pacientes de um andar para o outro. Entrei, sem nem mesmo saber por que fazia aquilo. Imediatamente a porta se fechou atrás de mim. Olhei para o painel e vi a luz do quinto - e último - andar se acender. "Estou louco. É isso", pensei. A subida foi rápida, a porta se abriu e eu me vi no antigo centro cirúrgico do hospital. Tudo como era há mais de vinte anos, quando eu trabalhava ali como médico residente. A mesma estrutura, os mesmos funcionários, as três salas de cirurgia dispostas uma ao lado da outra… A sala três… a fatídica sala três.
Caminhei lentamente até ela. Pela janela de vidro na porta pude ver que uma cirurgia estava em andamento. Mais uma vez o suor e o medo se espalharam pelo meu corpo. Na equipe pude reconhecer o olhar severo, as sobrancelhas grossas, a testa enrugada… a expressão atenta do meu falecido pai. Sim, ele estava ali, operando como se ainda fosse o diretor presidente do hospital. Mas ele gritava com outro membro da equipe. Gesticulava furiosamente, enquanto tentava estancar o que parecia ser uma hemorragia no paciente. Pude ouvir seus gritos, e foi como uma lembrança ruim. "Você matou esse homem, seu incompetente. Você matou ele. Tenho vergonha de te chamar de filho".
Não pude acreditar. Ao lado de meu pai, eu vi a mim mesmo, trêmulo, suarento, apavorado. Afastei-me (?), ou melhor, o jovem que eu era se afastou da mesa de cirurgia e vomitou copiosamente a um canto. "Alguém tira esse estrume daqui. Só faz atrapalhar. Enfermeira, registre a hora do óbito. Seis e meia. Doze de dezembro".
Ali estava, diante de mim, o pior momento da minha vida sendo revivido. O dia em que eu tive que fazer uma cirurgia de emergência numa vítima de assalto. Eu, recém-formado, único cirurgião presente naquele momento. Os outros estavam ocupados com casos graves e igualmente urgentes. O único médico mais experiente que poderia me ajudar só chegaria uma hora depois. Estava preso no trânsito, a cidade era um caos por causa de uma tempestade - muito parecida com essa de agora. O único médico que poderia me ajudar… meu pai. Só conseguiu chegar a tempo de ver os meus erros, minha imperícia. Ele assinou o atestado de óbito. Ele assumiu o erro. Salvou a carreira do filho iniciante. Foi este o incidente que fez com que eu buscasse sempre saber mais, conhecer mais, pesquisar. Foi o que fez de mim um dos cinco mais respeitados cirurgiões do mundo hoje. Mas foi também o erro que me condenou a uma eterna insatisfação comigo mesmo, e a um infinito peso na consciência. Foi o erro que fez com que, apesar de todos os meus esforços, eu nunca conseguisse o respeito, ou mesmo o carinho do meu pai.
Sofrer aquilo tudo de novo era demais para mim.
De repente ouvi de novo uma voz rouca e familiar. A mesma voz que me alertou no meio do nevoiero, quando subi a Torre. "Eu te disse pra não entrar aqui", exclamou tristemente. Olhei para trás e reconheci o rosto do paciente que morreu naquela cirurgia, tanto tempo atrás. Ele ainda usava o avental, o peito trazia uma enorme chaga mal suturada com pontos enormes, por onde vertia um filete de sangue e pus. Um cheiro de coisa podre invadiu meu nariz.
Nunca soube o nome daquele homem. Nunca tive coragem de pesquisar sua vida, saber se deixou filhos, amigos, amantes. Mas ele estava ali. De nada adiantou fugir, não é? O erro me encontrou e firmou minha condenação.
Sem dizer nada, o cadáver apontou para a porta do elevador. Fui até lá, cambaleando, olhos embaçados de lágrimas. A porta se abriu. À minha frente, o fosso vazio do elevador e a escuridão absoluta. Um passo, tudo se resume a isso. Um passo.
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O corpo do famoso médico só foi encontrado cinco dias depois. Um andarilho que invadiu o velho prédio da Santa Casa para dormir sentiu um fedor diferente da carniça com que já estava acostumado, foi até o local onde ficava o elevador e encontrou o cadáver, já apodrecido. A polícia fez uma rápida investigação, e não teve indício algum que indicasse homicídio. Contra todas as probabilidades, foi preciso se render às evidências. O cirurgião rico e respeitado se matou. Mas o por quê desse ato desesperado, ninguém jamais ficou sabendo. Seria um gasto inútil de recursos da polícia tentar descobrir a motivação de mais um desgraçado entre tantos que existem no mundo.
No enterro, a irmã, a velha mãe e o sobrinho mais velho (os outros dois não se deram ao trabalho de comparecer) receberam as condolências de uma infinidade de amigos, colegas e ex-pacientes do respeitável doutor.
FIM



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