Abduzido

abduzido_ Por quê sempre chove no Natal? _ Perguntava-se Vado, sem nada melhor para fazer e sem atinar que aquela não era uma verdade absoluta. De qualquer forma, era a impressão que ele tinha; e neste caso, como em muitos outros, a impressão é mais importante que o fato em si.
Chovia, portanto. Vado deixou-se ficar sobre uma poltrona de encosto rasgado com uma garrafa de uísque na mão. Encheu o copo de novo e depositou a garrafa pela metade sobre a mesinha de vidro. Recostou-se na poltrona rasgada, olhou para a TV ligada sem dar a menor atenção ao programa: algum especial de Natal cheio de sentimentalismo e finais felizes.
Finais felizes não existem; pelo menos esta é a crença de Vado. Lançou um olhar desinteressado pelo pequeno apartamento, iluminado apenas pela luz azulada da TV. Do quinto andar onde estava conseguia ouvir o Natal se arrastando pela rua como uma serpente: alguns hinos mais gritados que cantados por um grupo de jovens embriagados na calçada, lá embaixo; os últimos carros apressando-se para a ceia antes da meia-noite. Olhou para o relógio de pulso: faltavam cinco minutos.
_Não vai chegar a tempo, idiota. _ resmungou em voz alta, bêbado, imaginando o motorista de um daqueles carros apressando-se por estar com a família ou a amante, os pneus sobre o asfalto molhado produzindo ruídos estridentes que chegavam a seus ouvidos. _ Vai acabar batendo o carro e ficando sem ano novo para celebrar _ pensou.
Sozinho no apartamento e na alma, sem ninguém que lhe interessasse o suficiente para tirar-lhe o prazer daquela amargura, Vado levou o copo à boca e sorveu a dose, de um golpe. Ouvia a chuva contra a janela, sentia o torpor se espalhando por seu corpo e percebia que não estava tão bêbado quanto desejava: ainda era capaz de antecipar a ressaca que fatalmente teria no dia seguinte.
Ele poderia ter ido à casa da velha tia, única parente viva. Ou, até, pedir acolhida na casa da ex-mulher – vale tudo para não ficar sozinho na noite de Natal. _ Mas, que merda, o que há de especial nesta noite? É só mais um ciclo de 24 horas que se fecha.
Voltou a encher o copo com sua ceia de malte “doze anos”.
Vagava entre a embriaguez e a raiva quando ouviu o barulho da janela se abrindo e sentiu uma lufada de vento chuvoso na nuca. Levantou-se bruscamente e tropeçou na mesinha de vidro. Antes de cair com estrondo teve tempo apenas de divisar um grande vulto encurvado como um corcunda.
_ Que diabo, como esse assaltante subiu cinco andares debaixo de chuva? _ pensou, surpreso.
_ Estou armado! _ gritou para o vulto, com a esperança de intimidar o invasor.
Não houve resposta.
_ Quem está aí? É melhor sair rapidinho se não quiser levar bala!_ gaguejou, enquanto se levantava e se espremia contra a parede.
_ Sei que você não está armado, meu filho!
A voz bondosa assustou Vado ainda mais. Ele procurou o interruptor. Assim que a luz se acendeu, mal conseguiu segurar o riso.
_ Mas que merda é essa?
À sua frente, um homem de longas barbas brancas, vestido com trajes vermelhos, carregava um grande saco, também vermelho, às costas _ não era uma corcunda.
_ Você não devia usar esse linguajar, Osvaldo. Ainda mais comigo que, ao que parece, sou o único que não se esqueceu de você nesta noite.
_ Mas quem é você?
_ Essa pergunta nem merece resposta.
_ Ora, pare com isso, você é louco? Papai Noel não existe…
_ Sim, sim, claro. Eu faço o bem para incontáveis pessoas e tudo que consigo é ser chamado de “lenda”. Mas não há de ser nada… a situação dos monstros é ainda pior no Dia das Bruxas. São confundidos com as crianças e adultos fantasiados, não assustam mais ninguém…
_ Mas… mas isso é impossível.
_ Olhe, Osvaldo, tenho muito que fazer ainda hoje. Aqui está o seu presente. Já passou da meia-noite, pode abrir se quiser.
Vado retirou o papel colorido de um pacote retangular e imediatamente reconheceu o carrinho de bombeiros que queria receber num Natal há muito passado, quando ainda era uma criança que acreditava em Papai Noel. Naquela época, o pai desempregado não teve como comprar o brinquedo. Foi então que começou o desgosto de Vado com esta época do ano; resultado da triste descoberta de que “crianças boazinhas” não têm presente garantido.
_ Desculpe o atraso. _ comentou o velhinho, como se adivinhasse os pensamentos de Vado.
_ Mas eu pensei que você sempre se escondesse. Que novidade é essa de aparecer assim, sem mais nem menos?
_ É que eu vim lhe fazer uma proposta, Osvaldo. Meu duende-chefe se aposentou; sabe como é, resolveu viajar sem prazos tão apertados, curtir o que lhe resta de eternidade. Não posso culpá-lo… mas, enfim, o fato é que preciso de um novo auxiliar. Vim convidá-lo.
Mesmo sem acreditar que participava de uma conversa tão ridícula, Vado resolveu descobrir até onde iria tudo aquilo:
_ Você não tem mais nenhum duende para o serviço?
_ Sinceramente, eu gostaria de experimentar algo novo… um humano em vez desses pequeninos. Os humanos me parecem mais vocacionados para o absurdo _ e são maiores, mais fortes…
_ Mas por quê eu? Acho que tem uns bilhões de pessoas no mundo que têm mais condições…
_ É verdade, não vou mentir; mas estão todas ocupadas com suas carreiras, suas famílias, etc. Têm uma vida, se me entende. E você…
_Eu também tenho uma vida! _ irritou-se Vado.
_ Osvaldo, Osvaldo, olhe à sua volta. Um apartamento imundo, nenhuma alma para lhe desejar feliz Natal, sem emprego, sem família, sem amor… você não faz diferença para ninguém. Estou propondo que passe a fazer diferença para todos os que ainda acreditam na magia do Natal.
Vado quis responder mas não pôde. Teve consciência da verdade contida nas palavras do velhinho. Tomado de melancolia, parou de fitar os próprios pés e encarou seu estranho visitante:
_ Está bem, vamos experimentar.
_ Excelente, meu filho. Não esqueça o seu presente. Ah, sim, e pegue um casaco. O clima é um tanto frio onde você vai morar a partir de hoje!
O idoso se aproximou da janela, resoluto.
_ Meu Deus, ele vai pular! _ assustou-se Vado, agarrando o braço do homem.
_ Está vendo? _ vibrou Papai Noel _ Este é o tipo de atitude que o qualifica para o trabalho. Essa vontade de ajudar os outros que nem você se lembrava possuir.
Vado, encostado no parapeito, olhou para baixo e soltou uma exclamação. Quase grudado à parede externa do edifício um trenó flutuava em pleno ar, preso a um grupo de renas.
À frente daquele cortejo voador, Rodolfo e Corredora apontavam seus focinhos vermelho-reluzentes para o novo passageiro.
_ É bem maior do que o antigo assistente! _ reclamou Rodolfo, calculando o peso extra que teria que puxar através do planeta.
_ Mas é bem menor do que nosso mestre! _ respondeu Corredora, a rena mais otimista da comitiva.
Os dois homens embarcaram e saíram voando rápido, cortando a noite chuvosa com um rastro de estrelas douradas.
No dia seguinte a tia de Vado foi ao apartamento. No elevador, encontrou a ex-mulher dele, um tanto constrangida.
_ Você por aqui, Debora?
_ Há quanto tempo, tia Celina. _ respondeu a moça, enrubescendo _ Vim desejar feliz Natal ao Vado. Nós estamos separados, mas não somos inimigos _ achou que devia explicar.
A velha deu um risinho de canto de lábio e não disse nada. Subiram até o quinto andar em silêncio.
Tia Celina tocou a campainha. Não houve resposta. Insistiu; nada. Resolveu usar a chave que ganhou do sobrinho quando ainda o visitava com frequência, antes de se cansar das grosserias do moço.
Entrando no apartamento, as duas encontraram a garrafa de uísque entornada no carpete esgarçado, um cheiro de bolor misturado com bebida velha, a mesinha de vidro tombada e um papel de presente amassado. Debora desligou a lâmpada e a TV que exibia pela enésima vez um “enlatado” de boas festas. As duas notaram a janela aberta, o chão molhado de chuva; não encontraram nenhum sinal do morador.
_ Onde ele se meteu? Parece que saiu com pressa!_ observou a mulher, intrigada.
_ Será que aconteceu alguma coisa com ele? _ preocupou-se a tia.
_ Ora, no mínimo ele se enrabichou por alguma vagabunda – desculpe a linguagem, tia – ou então resolveu fugir de repente dessas dívidas – apontou para um amontoado de envelopes largados junto à porta. _ Logo ele dá o ar da graça, não se preocupe. E, aproveitando, tia Celina, feliz Natal!
_ Feliz Natal, Debora!
Tia Celina ficou ainda um tempo no apartamento depois que Debora saiu. Em  silêncio, rezou:
_ Meu Deus, permita que Vadinho esteja bem; e, se não for pedir demais, que ele arranje um bom emprego este ano

FIM

MC, 6/11/2010

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