Querido Trema

Querido trema:
Quem lhe escreve é seu colega, o hífen. Soube que anda triste com o desterro a que foi condenado depois da reforma ortográfica.
Você reclama de barriga cheia, amigo trema.
Triste é a minha situação. De uma hora para a outra me vi transformado no pior pesadelo de qualquer um que se arrisque a escrever palavras compostas.
Posso até ouvir os comentários: “diabos, e agora, uso ou não uso essa porcaria desse hífen?”
“Será que ele está na autoescola? Ou já foi direto para a autoestrada?” Nada disso, não sou bem-vindo em nenhuma das duas… mas pelo menos, aos trancos e barrancos, continuo bem-vindo entre os luso-brasileiros.
Estou vendo a hora em que vão me banir para o mesmo limbo onde agora você descansa, amigo trema. Serei expulso, coberto de xingamentos: “Sinalzinho sem-vergonha”, dirão os escritores. Meu consolo é que ainda precisam de mim para escrever “sem-vergonha”.
(Espero não ter errado no uso do nosso “querido” hífen. Mas ao contrário do texto acima, nada indica que ele vá desaparecer, ou pelo menos se tornar mais simples…)

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