Ópera_Bufa

Esta é uma obra de ficção. Rezo a Deus para que qualquer semelhança com fatos reais seja apenas coincidência.

O espocar de mais uma rolha saudou o primeiro instante do novo ano. O precioso “Cuvée belle Époque” foi para dentro das taças de cristal, e de lá para as bocas sedentas onde fez uma orgia açucarada a caminho das gargantas.
Pelo luxuoso salão mulheres desfilavam um brilho decadente e uma ostentação de mal gosto, enquanto homens impecavelmente trajados escondiam seus ventres protuberantes em camisas de seda.
A pequena orquestra, contratada especialmente para aquela noite, enchia o ar de música envolvente. Alguns casais mais suscetíveis rodopiavam como se levitassem, exibindo nos gestos uma permissividade sensual.
Na sala de jogos, o tampo de vidro da mesa era disputado por incontáveis canudinhos de dinheiro que conduziam brancas carreiras de cocaína a narizes irritados. A lucidez permanecia fora daquele círculo como o azeite que não se mistura à água.
Jeniffer sorriu ao sentir as formosas nádegas apalpadas pelo desembargador. Olhou para ele com uma atitude de falsa indignação que pareceu acender ainda mais o desejo do velho.
_O que é isso, Meritíssimo? Sua esposa está logo ali.
_ Ora, ela está tão drogada que nem imagina onde eu estou.
_ Ainda assim, não convém… estamos com a casa cheia…
_ Ah, que me importa isso? Me deixa ver o que você esconde por baixo desse vestidinho safado… não seja má.
A loira rechaçou o ataque com um movimento de quadril e uma risada histérica enquanto se afastava para o escritório do dono da casa: o rico e honesto empresário do ramo de transportes que bancava aquela farra. No caminho, notou uma conversa entre o juiz Olinto Nunes e o secretário de segurança, Gumercindo Araujo. Curiosa, retardou o passo fingindo ajeitar a roupa.
_ Então tenho um compromisso do senhor? No fim do ano, estarão todos “encaminhados” _ perguntava o secretário.
_ É só o tempo da poeira baixar _ respondeu o juiz.
_ Ótimo. O senhor sabe, não estou nem aí com os peixes pequenos. Podem apodrecer na prisão, aliás é melhor que lá fiquem, como prova de nossa “eficiência”. Mas uns policiais mais afoitos acabaram pegando uns “graduados” durante a operação. Acreditaram mesmo naquilo tudo, etc. Bem, não preciso dizer que esses “graduados” contam com a afeição de alguns dos financiadores eleitorais mais assíduos do governador. O senhor sabe como isso funciona.
_ Não se preocupe. Pelo seu próprio interesse, não me diga mais nada. Sei o que fazer. Considere como uma troca de gentilezas, está bem? _ respondeu o juiz.
Jeniffer cumprimentou o juiz, recebeu com indiferença os olhares gulosos do secretário e retomou seu caminho até o gabinete do chefe.
Ao abrir a porta, viu que a sala se mantinha iluminada apenas pela luz da televisão. Um cheiro forte de fumaça de charuto empesteava o ar. A moça se aproximou e tocou o ombro do homem sentado numa grande poltrona.
O homem não tirou os olhos da tela. Assistia a um boletim gravado horas antes no complexo do Alemão, mostrando o avanço do Bope com apoio do exército. “Este é um dia histórico para o Rio de Janeiro”, dizia a repórter entusiasmada.
As imagens mostravam alguns descamisados sendo conduzidos até a saída da favela e desaparecendo nas entranhas dos “caveirões”. Mais afastado, um blindado do exército recebia um novo contingente de policiais.
Um policial dava uma entrevista: “esse jovem tem uns dezenove anos, no máximo, mas já conta com alguma estatura na hierarquia do tráfico, é um dos líderes na Nova Brasília. Pegamos ele tentando se embrenhar na mata, no alto do morro”.
O homem na poltrona soltou um riso irônico enquanto apagava o charuto contra o cinzeiro. Só então olhou para a moça que o observava e fez um sinal para que ela se sentasse.
Jeniffer se jogou sobre o colo do patrão e pôs-se a assistir a TV. Outra imagem mostrava algumas metralhadoras enferrujadas e cobertas de terra. “Esse armamento de grosso calibre foi apreendido numa casa a oeste de nossa posição, enterrado no quintal”, explicava um capitão do Bope. O empresário não conteve as risadas. “Armamento de grosso calibre, aquela sucata…”
Quando o boletim acabou, Jeniffer encostou os lábios nos de seu chefe.
_ Feliz ano novo _ disse ela.
O outro não respondeu. Limitou-se a acariciar as coxas roliças da loira, absorto em pensamentos. Alcançou um jornal sobre a mesa e releu pela enésima vez a manchete, com indisfarçável prazer: “Policia do Rio garante segurança para Copa e Olimpíadas”. Seguia-se o subtítulo: “comitê internacional aprova ofensiva contra o tráfico”.
Repentinamente de bom humor, o empresário apertou o rosto de Jeniffer com as mãos e enfiou voluptuosamente a língua na boca da moça.
_ Você não está preocupado com essa guerra aos traficantes, Luiz?
Jeniffer conhece bem a fachada de “empresário respeitável” que, na verdade, esconde a identidade do grande “homem-forte” do tráfico no Rio de Janeiro. Um homem que tem políticos, juízes e policiais na folha de pagamento e coleciona consciências como a criança que guarda tampinhas de refrigerante. Jeniffer sabe mais sobre o chefe do que a esposa dele, que não enxerga a realidade – ou não quer enxergar.
O telefone tocou. Luiz atendeu – era a linha direta do empresário, conhecida apenas de uma dúzia de colaboradores, à prova de grampo.
_ Sim? É ele… Sim, sim, eu estava assistindo agora… perfeito. Maravilhoso. Sua equipe de jornalistas deu o tom ideal ao assunto. Claro, claro que depois disso a realização dos eventos esportivos estará garantida. Os interesses da sua emissora estão protegidos, vá preparando as estratégias de transmissão dos jogos.
Mal desligou e a linha exclusiva tocou de novo. Era “Cartola”, seu principal comandante nos morros da cidade.
_ Feliz ano novo, patrão. Estou ligando só pra dizer que os “cabeças” estão quase todos aqui, em segurança, esperando sua ordem pra retomar as “bocas” no Alemão. Mas a casa caiu pro “Ponto-Quarenta” e pro “Birruga”. Deu algum engano e os “homi” levaram eles junto com os “soldadinhos”. Se o senhor quiser, avisa, que a gente manda soltar os dois. No mais, o alto comando tá aqui, são e salvo, na nossa festa de reveillon.
_ Não se preocupe, “Cartola”. O secretário de segurança está aqui em casa e já sabe que dois dos nossos comandantes foram presos por engano. Está tudo encaminhado.
Luiz colocou o telefone no gancho e pegou mais um “Cohiba” na caixa. Jeniffer torceu o nariz e tentou se levantar para sair da sala, mas foi retida pelo chefe. Ele acendeu o charuto, brincou com a fumaça dentro da boca, soltou-a em pequenos aneis pelo ar enquanto subia pelas pernas da mulher com a mão lasciva. Relembrou mentalmente o plano arquitetado meses antes com o apoio do governo, de parte da Justiça e dos controladores da mídia. Sentiu-se um maestro onipresente, um diretor de uma grande ópera-bufa num “circo de horrores”. Sim, até o fim do ano recém-nascido, tudo voltaria ao normal, cada ator em seu papel: a polícia, os traficantes, os políticos. “E os viciados, é claro”, pensou friamente.
Numa avenida da zona sul, dois jovens num carro importado conversavam ansiosos.
_ Será que é uma boa ideia fazer isso, Lucas? Com essa movimentação toda na cidade…
_ Fica fria, gata, que eu sei o que estou fazendo.
Um rapaz, pouco mais velho que um menino, se aproximou do carro e deu dois tapinhas na janela do motorista.
_Tá aqui, chefia, da melhor procedência. Só que o preço subiu. “Sacomé”, os “homi” tão apertando o cerco. Tá ficando perigoso esse meu ofício.
_ Tá, tá, não quero saber. Passa pra cá.
Lucas pegou o pacote repleto de um pó branco e se afastou cantando os pneus de seu carrão luxuoso.
_ Vamos que a galera toda está esperando esta parada lá no réveillon _ disse ele para a namorada já tranquila e sorridente, pensando na festa que se estenderia até o amanhecer.
_ Feliz ano novo!_ balbuciou o traficante para si mesmo, contando as notas que recebeu.
Longe dali, no Complexo do Alemão, o espocar de uma metralhadora saudava 2011.
FIM
MC, 28/11/10

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