Matuto

Tinha um jeito muito especial de se interessar pela saúde dos outros. Invariavelmente perguntava, no seu tom matuto e mineiro:

_”Tá bão, tá bão memu”?
Os parentes da capital paulista já estavam acostumados com aquele jeito de falar, não riam mais. O mesmo não se pode dizer dos vizinhos, que sempre achavam muita graça naqueles trejeitos linguísticos.
Estava de férias, resolveu visitar o primo em São Paulo. “Cidade ‘bunita’ que só ‘veno’. Cheia dos ‘arranhacéu’, dos ‘carro’, das gentes mais variadas. Tem até um trem que anda debaixo da terra que nem tatu”, recordava-se Crispino, no ônibus a caminho da metrópole.
Ficara embasbacado na primeira vez que viera à cidade grande. Aquela experiência foi motivo de conversa por muito tempo na venda do Nhô Brás, os amigos todos em roda, ouvindo-o atentamente e com algum descrédito.
_ Mas que é isso, Crispino? Quer dizer que tem avião que “pósa” no centro da cidade?
_ Se não é no centro, é bem perto. Tem um estacionamento de avião lá, bem do lado das ruas e dos prédios. Dá até gastura imaginar que um daqueles urubus gigantes pode bater num arranha-céu, falava e se regalava com a surpresa dos ouvintes.
Mal sabia Crispino que também ele era motivo de admiração por parte dos paulistanos. As situações em que se metia rendiam histórias e mais histórias, repetidas entre risos por longos meses, mesmo depois que o caipira voltava para sua terra.
_ Não acredito, Juvenal! O Crispino nunca tinha andado de escada rolante?
_ Pois se eu estou dizendo que quem quase rolou foi ele, escada abaixo!
As gargalhadas se multiplicavam.
Mas diante de Crispino as risadas se limitavam a discretos olhares divertidos, trocados entre os amigos de Juvenal. O primo paulistano até que se divertia com isso, mas exigia que todos respeitassem o parente matuto. “Nada de piadinhas de mau gosto com ele”, advertia.
Juvenal pegou Crispino na rodoviária. Irritou-se com o trânsito lento até em casa enquanto o outro era só deslumbramento.
_ Olha, primo, parece que os “arranha-céu” “ficaro” mais alto “desque” eu vim aqui a última vez!
_ Impressão sua, Crispino. Onde já se viu prédio crescer que nem gente?
_ E por que não? Se os homens querem, acabam construindo mais prédio onde já existia um. Vão esticando até as nuvens. “Agaranto” que os “engenhero” consegue fazer isso se quiser.
Juvenal ficou quieto, achando que Crispino não deixava de ter alguma razão. Qual é o limite para a técnica e a ciência humanas?
Os dias foram passando agitados, entre passeios em Shopping Centers, visitas a parques públicos, museus e teatros. Sim, Crispino gostava de ir ao MASP, à Pinacoteca, ficava longas horas observando os trabalhos dos gênios. Nessas ocasiões não perdia a chance de desfilar seus dotes de crítico de arte.
_ A água desse riacho perde de longe para o “córgo” lá da vila, muito mais limpinho. Mas as árvores que o pintor fez estão bonitas, dizia sobre um Monet no salão principal.
_ Que rabisqueira dos diabos! Comentou sobre um alemão contemporâneo em exposição itinerante. _ “Num intendi foi nada”.
_ Esse tal de Picasso gostava de entortar as donas, né não? Dizia, observando reproduções na livraria da Pinacoteca.
Juvenal se divertia na mesma medida em que se afeiçoava ao parente mineiro. A companhia de Crispino representava uma pausa na malícia da vida urbana.
Crispino, por sua vez, sentia o universo crescer à sua volta. Cada vez mais amplo, profundo, instigante. Muito maior do que a vila, a roça, a pescaria no córrego.
_ Mundão grande de meu Deus! Exclamava, admirado.
Ficava com uma angústia a revirar-lhe as tripas. Vontade de ver mais, conhecer coisas novas, descobrir. A inteligência caipira era provocada ao limite do desespero entre aqueles prédios e buzinas. Tanto que Crispino ainda não sabia, tanto a explorar, tantas coisas inimagináveis ainda a desvendar.
Crispino tomou uma decisão. Mudaria de mala e cuia para São Paulo. Comunicou ao primo a sua idéia sem rodeios.
_ Mas vai fazer o que por aqui, Crispino? Está louco?
_ Quero trabalhar aqui, viver no meio desse mundaréu.
_ Mas por que você abandonaria aquele paraíso onde vive?
_ Ah, primo, lá as coisas são mais devagar, não tem novidade. Aquela pasmaceira não me serve mais, não.
Juvenal ficou preocupado. Alertou, argumentou, deu números de estatísticas policiais, desemprego, custo de vida. Nada adiantou. Crispino era como burro de carga. Quando empaca numa ideia não há que fazer.
Três meses depois estava com malas e caixas de papelão no terminal Tietê. Juvenal ajudou na mudança para uma pequena pensão ali mesmo nos arredores da rodoviária.
_Por quê não fica comigo uns tempos, Crispino? Esse lugar é de amargar…
_ Aqui está bom, primo. Tinha graça dar trabalho para você!
O matuto empacou também nessa ideia, não houve como demovê-lo. Crispino já tinha conseguido a promessa de emprego numa obra, como ajudante de pedreiro. Fez as contas e viu que o salário bastava para pagar a pensão e comer duas vezes ao dia. A oferta veio de Florêncio, um conterrâneo que tinha se mudado para a capital três anos atrás.
Dia seguinte, Crispino entrou no tal “trem-tatu” e foi ao centro. Custou um pouco mas localizou o endereço indicado por Florêncio. Encontrou o amigo com uma cara preocupada.
_ Não deu certo o arranjo, Crispino. A empreiteira acabou de demitir um monte de gente. Eu mesmo estou na rua.
_ O que você está me dizendo, colega? Agora eu já fiz a mudança, vim com tudo que é meu aqui para a capital.
_ Lastimo, mas fazer o que?
O golpe foi duro. Meio atordoado, Crispino precisou de um tempo para se reanimar. “Não há de ser nada. Arranjo outro emprego já, já”.
Mas infelizmente não foi assim. O dinheiro que havia poupado para a mudança desapareceu em menos de um mês, consumido principalmente nas despesas da pensão. Logo o senhorio avisou, com cara de poucos amigos, sobre o confisco das bugigangas que Crispino tinha no quarto.
_ Não faça isso, seo Venceslau. Para onde eu vou, só com a roupa do corpo?
_ Não é problema meu. Deve, tem que pagar. Fico com a mala e os trapos, que pelo menos reduzem o meu prejuízo. Posso fazer a caridade de devolver suas caixas de papelão. Nunca se sabe, podem servir de cobertor.
Humilhado, Crispino baixou a cabeça e saiu sem dizer nada. Logo na esquina a desfeita começou a pesar em sua cabeça, o estômago embrulhou, pôs para fora tudo que havia consumido na última refeição. Sem saber quando comeria de novo.
Ligar para o primo foi ideia que lhe ocorreu mais de uma vez. Mas o orgulho impediu essa providência. Preferiu andar sem rumo pela marginal Tietê, adentrando um pouco os bairros vizinhos, perambulando como um zumbi.
A primeira noite na rua foi dolorosa. Crispino se aproximou de um grupo de sem-teto que se aquecia numa fogueira dentro de um barril. Aproximou-se envergonhado, puxou conversa.
_Noite!
Não teve resposta.
_ Será que eu posso “quentáfogo” aqui com vocês?
Recebeu alguns olhares nada amistosos como resposta. Logo se viu cercado por aqueles homens. Dois seguraram seus braços enquanto um terceiro o aliviou das botinas. Crispino quis reagir, mas levou uma paulada na cabeça, à traição. Caiu desacordado.
Despertou rijo de frio, sem a camisa e as botas, jogado numa sarjeta. Nem sinal dos bandidos que o deixaram naquela situação.
Quando o dia amanheceu, Crispino ficou com a impressão de que aquela foi a noite mais longa de sua vida, o sol fazendo cera para aparecer.
Não havia mais para onde correr. Crispino revirou os bolsos, notou que a carteira tinha desaparecido. Felizmente encontrou um pedaço de papel onde anotara o telefone de Juvenal. Procurou um orelhão. Foi obrigado a ligar a cobrar, não havia dinheiro sequer para um cartão telefônico.
Quando ouviu a voz do primo, só conseguiu chorar. Dolorosos soluços embargaram-lhe a voz.
_Crispino, é você? Intuiu Juvenal do outro lado da linha.
_Sou eu, primo.
_Calma, me diga onde você está…
_Não sei onde estou, passei a noite na rua. Ah, primo, não sei o que fazer…
_Calma, pede para alguém por aí te dizer onde você está, que eu vou te buscar.
Horas depois Crispino estava aquecido na casa de Juvenal, tomando um café fumegante com gosto de acolhida. Contou brevemente suas desventuras. Ouviu calado as reprimendas de Juvenal, não devia ter deixado as coisas chegarem àquele ponto, procurasse por ele antes, onde já se viu, se ainda não tivesse ninguém, etc.
Crispino apenas acenava afirmativamente com a cabeça, enxugando as lágrimas. No final, disse:
_ Volto para minha roça.
Juvenal ficou triste. Voltar assim, sentindo-se derrotado… nunca mais seria o mesmo Crispino.
_ Você vai é largar de ser orgulhoso e deixar eu te ajudar. Se em seis meses nada der certo, você vai para onde quiser. Mas antes, deixa eu te dar uma força.
Crispino chorou mais. A teimosia de sempre tinha desaparecido a poder das bordoadas que tomou e do frio que passou. Acabou concordando.
 No final de sete meses, estavam os dois na roça. Juvenal e Crispino. Não vamos perder muito tempo com os detalhes que levaram esta história a tão inesperado final. Basta dizer que Juvenal foi demitido da empresa em que trabalhava há mais de cinco anos. Corte de despesas por causa da crise internacional, argumentaram os chefes. Depois de um período de luta inglória para se recolocar, durante o qual o dinheiro da indenização encolhia a olhos vistos, Crispino apareceu com a ideia salvadora. Tentariam a sorte no campo. Custo de vida menor, ar mais puro, e certamente um povo mais solidário em caso de aperto.
Juvenal ainda resistiu um pouco, mas acabou admitindo que aquela vida de metrópole o aborrecia há algum tempo. Uma temporada no interior de Minas talvez fosse um recuo estratégico, para depois voltar ao mercado com novas energias. Contou os tostões, fez as malas e embarcou num ônibus junto com Crispino.
O matuto não cabia em si de felicidade. Apresentou o primo aos amigos, supervalorizando as qualidades e esquecendo os defeitos. Logo, Juvenal virou assunto nas rodas. Entre risos, os conhecidos de Crispino divertiam-se com as mancadas do “bicho da cidade”.
_ Não acredito, Nhô Brás. Quer dizer que o Juvenal nunca tinha visto uma vaca, assim, ao vivo?
_ Nunca, Tonico. Só pela televisão. Ele mesmo me contou isso, quando fomos pescar no “córgo”. Achava que as vacas eram bem menores do que são.
Essa pescaria mencionada por Nhô Brás também ficou para a história. A falta de jeito de Juvenal rendeu boas piadas.
_Ele fazia uma cara de nojo na hora de por a minhoca no anzol, divertia-se Nhô Brás, torcendo os beiços e expremendo os olhos para imitar a carranca do pobre Juvenal.
_ E quando ele saiu correndo do peru de seo Joanico?
As gargalhadas se espalhavam pelas campinas.
Crispino também se divertia com essas situações, mas exigia respeito absoluto. “Nada de ficar mangando do primo, hein, gente? ‘Num’ quero saber de piadinha de mau gosto com ele”, avisava.
No fim do dia, o horizonte tingido de vermelho brindou o matuto e o metropolitano com um espetáculo gratuito.
_É mais bonito do que qualquer pintura de Monet, exclamou Juvenal, na certeza de que Crispino concordava com ele.

MC, 10/7/9

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