Egiptologia
O delegado perdia a paciência rapidamente. A vontade de esmurrar o criminoso à sua frente era quase incontrolável. “Se fosse um vagabundo qualquer já estaria com o olho roxo”, pensou, “mas como é político e empresário, eu tenho que ficar aqui aguentando a conversa mole dele”.
Encostado na cadeira do outro lado da mesa do policial, Tavares esfregava as mãos num sinal evidente de nervosismo, mas não perdia a pose:
- Pode-se tomar uma água por aqui? – pediu tentando impor um tom autoritário à voz.
- Jarbas! – gritou o delegado Tarcísio, irritado. O policial entrou esbaforido:
- Senhor!
- Traz uma água aqui para o deputado.
- Sim… senhor.
O delegado notou uma certa resistência, algo diferente no olhar do investigador:
- O que é que está acontecendo, homem?
- Doutor Tarcísio, o distrito está um inferno. Acabou de chegar um grupo aqui, que a PM trouxe, de uns sete sujeitos… moças e rapazes… diz que eles estavam no museu, fazendo alguma bruxaria. Estão todos vestidos com aquelas roupas compridas, brancas…
- Túnicas? – perguntou Tarcísio.
- É, é, acho que é esse o nome. Parece carnaval… Eles ficam falando coisas sem nexo numa língua estranha ali na recepção, ninguém está entendendo nada.
Tarcísio mandou o outro sair e encarou o deputado Tavares por alguns segundos antes de falar:
-Seguinte, deputado: o senhor já percebeu que aqui a gente tem muito trabalho para esta madrugada. O senhor poderia me poupar muito esforço e confessar logo o desvio da grana, hein? A casa já caiu mesmo…
-Não tenho a menor ideia do que está falando, meu caro – mentiu o político. – Fui envolvido numa rede de mentiras, caí numa armadilha da oposição.
Exausto, Tarcísio passou a mão pelo rosto. Ele já sabia que dificilmente aquela diligência teria algum resultado prático. A ordem de apreensão de documentos duraria apenas o tempo suficiente para que o juiz acordasse de manhã e anulasse tudo. O delegado olhou para o balcão no canto da sala onde estavam amontoados todos os papeis encontrados no gabinete e dois computadores que estavam na residência do salafrário. Chamou a atenção naquele espólio uma pequena valise. O delegado levantou-se e abriu a maleta. Dentro, um aparelho eletrônico semelhante a um laptop trazia a inscrição “Cayman Bank Inc.” em grandes letras douradas. “Uma conta cifrada”, concluiu Tarcísio depois de uma rápida olhada.
-Isso aqui fica comigo, “meu caro”- disse o delegado, saindo da sala com a maleta e deixando atrás de si um corrupto mais suarento que antes.
Na recepção o quadro era, no mínimo, bizarro. De fato sete jovens usavam longas túnicas brancas e seguravam o que pareciam ser cajados em forma de serpente. Nas cabeças, tiaras com a forma de gansos. Uma das moças chamava a atenção pela beleza dos olhos claros e cabelos loiros, as formas perfeitas que se faziam adivinhar debaixo do pano comprido que vestia. A outra, também de boa aparência, ostentava uma beleza mais discreta, daquelas que se nota apenas numa segunda olhada. Morena de pele bronzeada, olhos intrigantes que não se decidiam nem pelo castanho nem pelo verde, estatura um pouco inferior à da loira, embora escorada em curvas igualmente sedutoras.
Uma terceira mulher do grupo aparentava ser a mais velha, embora ainda jovem, talvez menos de quarenta anos; algumas dobras se formavam em redor de seus lábios finos. O nariz pontudo e um tanto desproporcional marcava o rosto severo. Cabelos pretos, longos e desalinhados eram contidos pela estranha tiara de ganso que usava.
O grupo era completado por quatro homens jovens. Um deles era notóriamente maior que os outros. Assemelhava-se a um Hércules loiro, com braços vigorosos e coxas musculosas que se revelavam da barra da curta túnica para baixo. Ao lado dele, os outros três pareciam meninos; menos, talvez, um dos mais mirrados, que apresentava um ar ridículo usando óculos fundo-de-garrafa.
-Vocês não sabem o que fizeram – berrava o de óculos – Vamos todos morrer se não terminarmos o que começamos!
-“Calabocaí”, “quatro-olhos” – respondeu o cabo da polícia militar que comandava aquela ocorrência. – Se quiser ouvir tua voz eu pergunto, certo?
-Vocês não sabem o que estão fazendo, não sabem… resmungou o sujeito, contrariado mas sem ânimo para desobedecer.
-Já é Dia das Bruxas e eu não fui avisado? Ou é o carnaval que mudou de época? – perguntou o delegado aproximando-se, zombeteiro.
-Delegado, graças a Deus! – empolgou-se “quatro-olhos”. –O senhor tem que soltar a gente para podermos terminar o ritual senão o Grande Geb vai se irritar ele já tinha sido invocado mas ainda faltava a oferenda ele vai ficar de mau humor…
-“Calaboca”, já disse – repetiu o cabo dando um safanão na cabeça do preso, arremessando longe os óculos tubulares.
-Sossega, cabo! –disse Tarcísio. –Deixa que eu me entendo com eles. Antes, me conta o que aconteceu.
-Positivo, delegado. Estávamos em operação de rotina pelos lados do museu quando notamos uma luz acesa no segundo andar. Adentrando o recinto pela porta que estava aberta, encontramos o segurança amarrado e amordaçado. Subindo as escadas, logramos êxito em encontrar os elementos aqui presentes, neste trajes estranhos, em atitude suspeita. Comunicado o fato à autoridade de plantão, fomos orientados a trazer todos para o DP da área.
Só então Tarcísio notou um homem barrigudo e careca, com uma marca escarlate em volta da boca, provavelmente de fita adesiva arrancada bruscamente; usava uniforme de segurança e observava tudo com olhar aparvalhado.
Tarcísio fitou a loira que lhe pareceu uma deusa romana ou grega e flagrou um brilho sensual e um leve sorriso nos lábios convidativos. Resolveu que, para fazer seu trabalho direito, era melhor interrogar alguém que não exercesse tanto poder sobre os homens. Voltou-se para a que parecia ser mais velha.
-Será que você pode me contar o que aconteceu?
-A verdade?
-Obviamente!
-O senhor não acreditaria.
-Sabe quantas vezes eu ouço isso por dia? “O senhor não acreditaria”… e normalmente estão certos os que falam isso, eu acabo não acreditando mesmo. Mas vamos, tente…
-Sou professora de história antiga, esses são meus alunos mais avançados –começou a moça. –Estávamos no museu para realizar uma antiga cerimônia e invocar um deus egípcio milenar. A sala onde fomos flagrados pela polícia –lançou um olhar para o cabo da PM –era a sala do Egito. Lá está guardado um poderoso objeto mágico, antigo como a Terra, que tem o poder de ligar este mundo ao dos deuses. É um colar de ouro, com um pingente em forma de ganso…
-Tá, tá, tá…-fez o delegado, impaciente. –Pula os detalhes ritualísticos e vai direto ao ponto. O que diabos vocês estavam fazendo lá?
-Estávamos invocando o poderoso Geb, santo seja seu nome! –respondeu a mulher.
O delegado olhou significativamente para o PM, como quem dizia “que encrenca é essa que você me arrumou, caramba?”. O PM limitou-se a erguer os ombros, e disse, como se tivesse interpretado o olhar de Tarcísio:
-Invasão de propriedade, agressão ao segurança, cárcere privado… O senhor queria que eu ignorasse?
-Claro que não, mas estou achando que o caso era mais para o ambulatório de psiquiatria do que para o meu distrito…
-Há mais uma coisa…
O delegado virou-se para a morena bonita que tomava a palavra pela primeira vez naquela noite:
-O ritual não foi concluído.
-Sei, sei… e…
-E –prosseguiu a jovem –estamos condenados se ninguém fizer nada.
-Explique-se –pediu Tarcísio.
-Invocamos Geb, santo seja seu nome, mas não tivemos tempo de fazer a oferenda apaziguadora.
-Sei que vou me arrepender da pergunta, mas… o que isso significa?
-Para que a impetuosidade do grande deus ficasse sob controle, ele precisaria de um brinde tão logo chegasse a nosso mundo. Uma taça de sangue de uma virgem.
-É aí que eu entro – disse a loira, com olhar divertido. –Meus colegas fariam uma incisão em meu braço, encheriam um pequeno cálice com meu sangue e ofereceriam a Geb (santo seja seu nome) tão logo ele aparecesse.
-Sangue de virgem?? –Tarcísio não conseguiu esconder a descrença.
-O que posso dizer, doutor? –respondeu a loira, entendendo tudo. –Pensei que a brincadeira não teria maiores consequências, estava de saco cheio dos mesmos programas e baladas sempre, achei que seria divertido.
-Como assim? –gritou de seu canto o “quatro-olhos”. –Brincadeira coisíssima nenhuma! Geb (santo seja seu nome) é real!
-Dá pra pular essa parte do “Santo seja seu nome”, pelamordedeus? –exigiu Tarcísio.
-Espera aí… você não mentiu sobre sua virgindade, mentiu? –perguntou a morena bonita.
-Ora, gente, francamente! Vocês acham mesmo que a essa idade eu ainda seria “casta como uma sacerdotiza do antigo egito”? Estão loucos?
-Sem dúvida! –exclamou Tarcísio.
-Estamos perdidos, irremediavelmente perdidos! –choramingou quatro-olhos, e colocaria as mãos sobre a cabeça se não estivesse algemado.
-Eu disse que não devíamos usar uma “infiel” no ritual –disse a mulher mais velha.
-E onde você sugere que eu encontrasse uma virgem? Num mosteiro? –irritou-se quatro-olhos.
-Jarbas! –gritou o delegado. –Guarda todo mundo no “seguro”. Eu cuido disso depois.
O estranho séquito de adoradores de Geb protestou, chorou, urrou… Quatro-olhos implorava que o libertassem para que pudesse fugir, fugir para o mais longe possível. A mulher mais velha ficou pálida como um defunto. A loira sensual apenas ria desbragadamente. Os três rapazes entreolhavam-se confusos e trêmulos, o grandalhão loiro com as pernas molhadas da própria urina e o rosto congelado numa carranca de pânico.
-Puta que o pariu! Limpa isso, Regis! –ordenou Tarcísio, olhando para a poça que se formou aos pés do gigante. Regis apenas torceu o nariz e foi para o almoxarifado pegar o esfregão.
-Pára aí mesmo que ainda não terminamos, “excelência” –berrou Tarcísio ao notar Tavares que se esgueirava em direção à porta.
-Que é isso, doutor? Só ia tomar um ar…
-Abre a janela da minha sala que dá na mesma! –respondeu o delegado, furioso.
Tarcísio olhou para a valise que tinha nas mãos e tomou uma decisão:
-Jarbas, depois que você engaiolar os integrantes da X-9, deixa o deputado bem confortável no xilindró do segundo andar. Eu vou ver o que o perito descobre nessa maleta aqui.
-Seu doutor, tem só um problema, a outra cela já está ocupada, tem que misturar as moças e os homens todos no mesmo xadrez. O deputado, o senhor sabe, tem direito a cela exclusiva…
-Não me enche com detalhes, Jarbas, resolve logo isso! A Renata registra a ocorrência. Renata, pega aí os dados com o PM. Vou para a perícia e já volto.
A perícia estava fechada àquela hora da madrugada. A sala, contígua à do delegado, estava trancada por dentro por Peixoto, o encarregado de plantão. Felizmente, era justamente ele o especialista em informática e criptografia.
Deu trabalho acordar o homem, mas ele finalmente atendeu às batidas na porta. Abriu e deu de cara com o delegado irritado.
-Até que o fato de você dormir aqui toda noite tem lá suas vantagens. Seguinte Peixoto. Tem uma senha oculta aqui nesse equipamento. Descobre.
Ainda meio sonado, Peixoto tentou argumentar:
-Cayman, doutor? –o perito olhava para o estranho equipamento que a valise continha. -Isso aqui é coisa grande. Maleta de conta exclusiva, só os sheiks da Arábia e os politicos de primeiro escalão conseguem uma dessas. Dá pra descobrir o código mas vai levar uns dez dias. E isso com a ajuda da Polícia Federal.
-Pois você tem meia hora e nada de envolver os federais. Liga para aqueles teus amigos hakers que eu sei que você vive contatando. Não pisa na bola, Peixoto, que dessa vez eu juro que chamo a corregedoria para passar tua vida a limpo.
Peixoto, que tinha lá seus podres mas sabia da camaradagem do delegado, riu-se da ameaça e respondeu:
-Me procura daqui a vinte minutos!
-Assim que eu gosto.
Tarcísio foi até sua sala, fechou a porta, jogou-se na cadeira e afrouxou o nó da gravata. Pegou o telefone, relutou por um minuto mas acabou discando para casa. Eram onze e meia da noite. Ele sabia que a qualquer momento a notícia da detenção do deputado Tavares chegaria à imprensa e o distrito ficaria ainda mais infernal, com repórteres, câmeras, flashes… era o momento para ligar para a esposa, embora não tivesse grandes esperanças de conseguir falar com ela.
O telefone tocou do outro lado da linha, insistente. A secretária eletrônica atendeu com a voz bonita da mulher: “residência dos Castilho. Não podemos atender agora, mas se deixar seu recado, blá blá blá (Tarcísio ouviu a própria risada gravada, ao fundo – uma época em que ele ainda se divertia com a esposa).
Ele desligou. “No mínimo, ela está na cama com o colega de trabalho de novo. Eu devia dar um fim nisso, à bala…”
Tarcísio saiu da sala com a boca amarga e ódio no olhar. Foi até o “seguro”, encontrou Jarbas finalizando os ajustes:
-Olha só, doutor, eu enfiei os viados na mesma cela dos assaltantes e traficantes que prendemos ontem. Eles adoraram as saias dos boiolas. As moças eu coloquei sozinhas na outra cela. O “colarinho branco” já está ali no canto, no xilindró, como o senhor mandou. Fica só pensando na morte da bezerra, dá gosto de ver o sangue frio do safado. Tudo resolvido – concluiu, orgulhoso da própria eficiência.
-Resolvido coisa nenhuma! E essa barulheira infernal?
Os fanáticos com tiaras de ganso imploravam pela liberdade. Até a soturna e sóbria mulher que parecia ser mais velha começava a dar sinais de desespero. Só a loira com cara de modelo observava a tudo com indiferença e jogava olhares risonhos para os bandidos da cela ao lado, provocando.
-Geb vai chegar! (santo seja seu…)
-Já sei, já sei, santo seja a porra do nome desse tal de Geba, Gegui, gebi, sei lá. Calem a boca senão eu mando descerem vocês todos para a garagem para respirar gás de escapamento!
Tarcísio caminhou na direção do velho elevador de serviço que em nada combinava com o casarão do século dezenove onde o DP funcionava. Resquício dos tempos em que o lugar foi um depósito de uma rede de supermercados; o elevador carregava as mercadorias para cima e para baixo. Antes de entrar, olhou para o xilindró e resolveu fazer uma última tentativa com o político. Caminhou até onde ele estava trancafiado, encostou-se nas grades e começou a argumentar:
-Olha só a sua situação, excelência… Preso que nem passarinho. Nunca pensou que ia ficar numa situação dessas, né? Mas vou lhe contar um segredo: comigo é assim. Não tenho medo de autoridade, de juiz, promotor, presidente da república… pra mim, vagabundo é vagabundo, use camiseta rasgada ou gravata engomada. É o seguinte: simplifica pra mim que fica bom pra você também. Dá logo a senha daquela maleta e eu te solto. Nem te apurrinho mais com essa história de desvio de verbas, que tal?
-O senhor está extrapolando. Eu sei muito bem que a ordem era para apreender meus documentos. Não falava nada sobre me prender. Eu vim aqui a convite dos policiais, eles disseram que era só para esclarecer umas dúvidas. Como era tarde, ninguém nem ia ficar sabendo, quis colaborar com a polícia, e agora me vejo nesta situação ultrajante. Quando meus advogados souberem, você vai ficar soterrado em processos.
-Então faz o seguinte, autoridade: acrescenta isso aqui ao processo.
Tarcísio tirou uma câmera do bolso e fez várias fotos do deputado atrás das grades. Quando terminou, disse:
-Sabe de uma coisa? Hoje em dia não há como segurar uma imagem dessas. Quem pode impedir que um faxineiro ou um escrivão bata fotos do deputado no xadrez e depois venda pra mídia? Um delegado não pode se responsabilizar por tudo… e essa imagem deve fazer um belo estrago no seu currículo, não é mesmo?
-Divirta-se, delegado. Aproveite enquanto pode. Quando a minha queixa chegar à Secretaria de Segurança Pública, o senhor vai voltar a ser guarda de trânsito.
-Aproveite a estadia, deputado. –falou Tarcísio, dando as costas para o politico e afastando-se da cela. Já no elevador, ele pos-se a pensar que o salafrário tinha razão; naquele impulso indignado, enterrou a própria carreira para sempre. “Foda-se”, concluiu. “Vou despejar essas fotos na internet agora mesmo”.
De volta ao primeiro andar, Tarcísio encontrou Peixoto sorridente.
-Um recorde, absolutamente incrível! Quinze minutos para quebrar o segredo do Cayman Bank Inc. Mereço um aumento, doutor.
-Vai sonhando, Peixoto.
O perito riu e passou para o delegado um pedaço de papel com números e letras manuscritos. O código da conta secreta de Tavares distribuído em três linhas.
“IERTNOCNEETNEMLENIFERARUCORPEDIERAPEUQÉTAADAÇIDREPSEDADIVODIDREPOPMETODARRERAGULONSAMIERUCORPSONALIMROP.7.7.7.3.3.3.1971160399”
-Você vai me contar ou vou ter que dar uma olhada naquela maleta e descobrir sozinho? –perguntou Tarcísio.
-Certo, certo… é claro que dei uma olhada no saldo. Tem nove zeros… e um número bem significativo na frente deles.
“Nove zeros”, pensou Tarcísio. Mesmo ele, que já sabia da sujeira nas mãos do deputado, se espantou com o tamanho do bolo. “Certamente, ele é só uma ponta de algo bem maior. A grana deve pertencer a um grupo mais influente, mais poderoso. E está tudo na valise, escondido atrás de alguns dígitos”.
Anos e anos de uma atuação absolutamente honesta fizeram de Tarcísio um policial honrado… e pobre. Duas décadas de trabalho em que assistiu a ascensão financeira de colegas corruptos enquanto sua vida pessoal ia pelo ralo. A mulher negligenciada e infiel, a sala malcheirosa onde enfrentava plantões intermináveis, as promoções sempre adiadas em proveito de algum outro policial “mais tratável”, mais flexível moralmente… tudo passou diante dos olhos de Tarcísio, como se diz que ocorre quando estamos à beira da morte.
A tentação se materializou naquele pequeno pedaço de papel. Letras e números que abririam um mundo absolutamente desconhecido para o cansado policial. Um passaporte para outra vida, outra realidade… quem sabe até a esposa não acabasse redescobrindo os encantos do marido? Mas aí, talvez fosse ele quem não se contentasse mais com ela e resolvesse dar seus pulinhos com modelos de quinhentos reais a hora.
Peixoto parecia ler nos olhos de Tarcísio tudo o que passava pela cabeça do delegado. Ia falar alguma coisa quando o ruído de uma grande explosão quebrou o silêncio do primeiro andar.
-Que diabo foi isso? –perguntou Tarcísio, erguendo-se do chão depois do impacto que estilhaçou todas as janelas do distrito.
Gritos vinham da rua, acompanhados de rugidos que lembravam o som gutural de um ataque de leões. Freadas bruscas de carros, mais explosões, gritos, rugidos…
-Caralho, é o PCC! –Gritou Jarbas, saindo do elevador.
-Vão pro “paiol”, gente, rápido! –comandou Tarcísio, referindo-se ao armário onde ficavam as escopetas, as “calibre doze” e as automáticas.
Rapidamente, o salão do primeiro andar ficou tomado de policiais com a adrenalina à flor da pele, felizes mais do que assustados, gratos pelo fim da monotonia no plantão, carregando suas armas e colocando-se em posição de alerta.
Enquanto isso, no subsolo, Jair acordava sobressaltado com o ruído das explosões. O som fantasmagórico dos urros animalescos logo chegou a seus ouvidos, congelando o sangue em suas veias. “Que será isso, meu Deus?”, pensou o policial encarregado de cuidar da garagem do DP.
Jair abriu a gaveta da mesa e retirou um velho 22, há muito tempo fora de uso. As mãos trêmulas abriram o tambor: vazio. O policial abriu outra gaveta, pegou uma caixa de munição, derrubou várias balas enquanto tentava carregar a arma. Concentrado no que fazia, nem notou que algo mais se movia pela garagem.
Quando ergueu o olhar, Jair não acreditou no que viu à sua frente: uma criatura brutal, gigantesca, o observava com olhos estreitos e furiosos. O nariz inexistente dava ao rosto ressecado uma aparência simiesca; a boca sem lábios se abria numa respiração pesada e fedorenta. A cabeça era coberta por uma mitra egípcia dourada, o corpo estava vestido apenas com uma túnica da cintura até os joelhos. A pele marrom como a terra, dava a impressão de que aquela monstruosidade de mais de três metros de altura era feita de argila. Mas quando os dedos nodosos da criatura se fecharam em torno de sua garganta, Jair percebeu que aquilo era feito de algo muito mais resistente do que o barro.
A criatura soltou alguns vocábulos em língua estranha enquanto erguia Jair do chão como se o policial fosse de papel. Depois, com zelo e precisão, golpeou-o entre as costelas, partindo-as. Sem conseguir respirar com os pulmões perfurados e a glote esmagada, Jair tentou articular um pedido de socorro, mas foi interrompido pelas presas pontiagudas do gigante que se cravaram em seu braço esquerdo, arrancando-o com um movimento de cabeça. Finalmente, a criatura arremessou o que restou do corpo de Jair contra a parede da garagem. Um som de ossos partidos ecoou pelo subterrâneo. O gigante ergueu mais uma vez o corpo de Jair e enfiou os dedos em sua boca, proferindo uma estranha oração profana. Depois, num gesto simples, arrancou a coluna do cadáver pela boca e jogou a carcaça inerte no chão.
Logo a garagem ficou tomada de criaturas idênticas ao primeiro invasor, mas não coroadas com mitras de ouro. Todas prestavam reverência ao primeiro que chegou, sem dúvida o líder daquele absurdo hediondo. Ignorando o elevador, eles fizeram em pedaços a porta de segurança que dava acesso à escada para o primeiro andar e, entre rugidos bestiais, subiram a passos largos.
Na recepção da delegacia, Tarcísio notava o absurdo da situação: pensava apenas nos bilhões que tinha ao alcance das mãos, enquanto algum perigo desconhecido se aproximava cada vez mais. Num esforço de concentração tentou organizar a defesa da delegacia:
-Vamos lá, gente, sei que cês tavam secos pra dar uns pipocos! Tem gente aqui que não atira há mais de um ano! É a hora, mandem bala sem dó, seja lá o que for que apareça pela porta da escada.
Logo a porta foi transformada num monte de estilhaços de madeira. Mesmo com toda a coragem e força de ânimo que caracterizava aqueles policiais, a visão que tiveram causou um segundo de vacilo. Um dos gigantes cinzentos, com rosto animalesco, surgiu no vão da porta e olhou para dentro, farejando o ar com a cavidade nasal exposta.
Passado o choque, Tarcísio gritou:
-Atira, atira, atira!
O disparo de sua “calibre doze” acertou o monstro em pleno rosto, arremessando-o escada abaixo. Mas logo outra criatura surgiu. Baleada no ombro, continuou avançando como se nada tivesse acontecido. Outro invasor, e outro, e mais outro, como se tivessem sido produzidos em uma linha de montagem, foram se lançando para dentro da delegacia, incontáveis, furiosos. Um deles agarrou Peixoto que, pasmado, não conseguia se mover. O gigante o partiu ao meio como se fosse de papel, antes de ser derrubado por um tiro de fuzil.
O balcão da recepção foi erguido e arremessado contra dois investigadores por um dos gigantes. O som de madeira e ossos quebrando-se gelou o sangue de Jarbas, que, furioso, disparou às cegas, ferindo colegas e causando poucas baixas entre os intrusos. A situação mostrou-se logo insustentável quando um dos egípcios, mesmo ferido na barriga, ainda matou dois policiais antes de tombar.
Tarcísio disparava e recarregava com uma frieza absurda. Logo entendeu que a cabeça era o ponto fraco daquele bando mortal. Cinco inimigos tombaram antes que um deles conseguisse alcançar o delegado e desarmá-lo com um golpe certeiro.
Arremessado contra a parede, Tarcísio foi agarrado pelo pescoço antes que pudesse se recuperar do golpe. Chutou com força os testículos do agressor sobrenatural, apenas para descobrir que aquele golpe não causava qualquer efeito… Suas vistas começaram a escurecer. Ele percebeu que perderia a consciência em poucos segundos. Num gesto desesperado, tateou ao redor procurando alguma arma. Lembrou-se da pequena pistola que usava presa ao tornozelo. Num esforço esmagador, alcançou o pequeno revólver, encostou o cano no olho esquerdo de seu adversário e disparou.
O monstro estatelou-se como um saco de arroz e largou Tarcísio, que caiu quase sem forças e rastejou para debaixo de uma mesa. Ele procurava alguma arma mais potente quando ouviu o que parecia ser uma trombeta ecoando em meio à algazarra.
O ser com a mitra dourada soprava o instrumento. A esse comando, os outros invasores interromperam o ataque. Tarcísio olhou em volta e percebeu, estarrecido, que todos os outros policiais estavam mortos. Vinte homens de valor, sem contar a escrivã Renata, talvez a mais corajosa de todos naquela delegacia, que permaneceu no posto e morreu lutando com os colegas.
O comandante daquele estranho exército olhou para o largo salão destruído e farejou novamente, como um cão. Logo proferiu algumas palavras ininteligíveis. Antes que pudesse evitar, Tarcísio se viu descoberto e agarrado pelos soldados fantasmagóricos.
Eles o arrastaram à presença do que parecia ser o líder. Tarcísio ouviu o que julgou ser uma pergunta, mas como responder a algo que simplesmente não entendia? O monstro, aparentemente irritado, começou a erguer a mão numa ameaça mortal. Foi então que o instinto de sobrevivência falou mais alto. Aterrorizado, o cérebro de Tarcísio funcionou numa velocidade fora do normal. Por mais absurdo que pudesse parecer, ele concluiu que o motivo daquele ataque bestial eram seus prisioneiros no segundo andar.
Tarcísio ergueu a mão e se fez entender por meio de sinais: levaria a criatura até onde estavam os malucos que a Polícia Militar havia trazido. Surpreendentemente, isso aparentemente satisfez o monstro. Ele soltou Tarcísio, empurrando-o brutalmente. O delegado aproximou-se do elevador, apertou o botão e, mais uma vez por meio de gestos, explicou que ele e o líder dos intrusos deveriam subir por ali – sozinhos.
Seguro de si, o estranho ser não titubeou. Mandou que seus acólitos permanecessem guardando o local e entrou no elevador com Tarcísio. Foi a viagem de elevador mais longa que o delegado jamais fez na vida, aquele cheiro de coisa morta empesteando tudo, o mal exalando de cada póro da criatura.
Quando a porta se abriu, Tarcísio ouviu a voz do deputado Tavares:
-Meu Deus do céu, homem, o que foi que aconteceu lá embaixo? A Al Quaeda invadiu a delegacia?
O comentário foi interrompido por um engasgo surdo. Tavares não acreditava no que via. A criatura olhou para ele com um desprezo mortal e inspecionou rapidamente as celas do segundo andar. Logo encontrou o que procurava, e soltou um rugido leonino. Tarcísio ainda teve presença de espírito para olhar os prisioneiros. O loiro grande havia se mijado de novo. Todos os outros estavam em choque, a loira mais que todos. O de óculos parecia murmurar uma oração.
A estranha criatura aproximou-se da cela onde estavam as mulheres e arrancou as grades da parede com as mãos. Elas ajoelharam-se e prostraram-se, reverentes. O monstro parecia bufar de ódio. A mulher mais velha, sem erguer os olhos do chão, balbuciou algumas palavras naquela linguagem incompreensível.
O invasor respondeu na mesma língua.
A mulher argumentou novamente.
O monstro tomou-a pela mão e fez com que ela se erguesse. Então, apertou os dedos dela até que as articulações estalaram. Um grito feminino que se seguiu foi a tradução do sofrimento.
A mulher abaixou-se violentamente e vomitou de dor. O gigante impassível olhou para os outro prisioneiros, aguardando. “Quatro-olhos” resolveu se manifestar. No mesmo tom reverente que a mulher, falou por algum tempo. Dessa vez, o monstro não reagiu violentamente. Apenas olhou para a loira que, encolhida no fundo da cela, observava a tudo com os olhos arregalados e um incontrolável tremor por todo o corpo.
Durante todo esse tempo, os outros presos ficaram balbuciando expressões de espanto, esmagados no fundo da cela, como se quisessem se transformar em moscas e voar para longe dali, completamente apavorados.
A criatura entrou na cela das mulheres, ignorou a bela morena e a outra, caminhou a passos seguros na direção da loira.
-Por favor, por favor, por favor…-repetia a moça sem parar.
A criatura a pegou pelos braços, ergueu-a sem a menor dificuldade e fitou-a, mantendo-a a poucos centímetros dos olhos minúsculos e vazios. Depois de farejá-la por alguns segundos, fechou a cara numa carranca monstruosa, urrou furioso e espremeu a bela cabeça da jovem contra a parede até transformá-la numa massa sanguinolenta. Então, soltou o corpo já sem vida e virou-se para os outros “seguidores” de seu suposto culto.
-Pobre moça, não era mesmo virgem – disse “quatro-olhos”.
Muitas horas se passaram. O dia logo amanheceria. Os invasores se espalharam por todos os cantos dentro do distrito. Tarcísio, perto de uma janela no segundo andar, olhava para a rua e imaginava que o fim do mundo havia chegado. Na frente da delegacia, nas calçadas e ruas vizinhas, incontáveis gigantes amarronzados, idênticos aos que haviam invadido a delegacia, espalhavam-se por todos os lugares. Carros pegavam fogo, lojas exibiam vitrines quebradas, postes sustentavam-se pendurados apenas pelos fios. Nos prédios, as janelas quebradas assemelhavam-se a olhos furados. Grandes focos de fumaça eram notados no horizonte, entre os edifícios.
-Tem alguma coisa errada…- Tarcísio ouviu a mulher que aparentava ter mais de trinta anos dizer. Aproximou-se da cela onde ela permanecia com a morena bonita e o corpo da loira.
-Não brinca… -o delegado não conseguiu deixar de responder.
-Não, não é isso… a aparência do deus Geb, mesmo para um deus ofendido… não é exatamente o que eu esperava!
-Olha, moça, não sei qual é a sua noção de deus, mas esse sujeito aí me parece mais um demônio do que qualquer outra coisa.
Tarcísio olhou para seu captor. Ainda não conseguia acreditar que tal visão estivesse diante de seus olhos. Lembrou-se então do papel que trazia no bolso. A senha para bilhões de reais. Sorriu amargamente. Justo agora que ele poderia ter tudo o que quisesse, o mundo acabaria em fogo e desespero. Não era justo… mas… todos querem alguma coisa. Até esses monstros devem querer alguma coisa
-Como é seu nome?-perguntou para a mulher a seu lado, sentada no chão da sala principal do primeiro andar da delegacia. Ela segurava a mão esquerda esmagada pelo estranho invasor do distrito.
-Felícia. A morena que veio com a gente é Moira. A loira que morreu (fez uma pausa e pareceu engolir um choro reprimido)… a loira era Kátia, coitada, ela não partilha de nossa fé… só queria se divertir, ao que parece…Ainda tem Josué, o loiro grandão, Rico, o de óculos, Caio e Russel, os dois últimos.
-Olha, Felicia, a gente tem que pensar no que está acontecendo… Me conta o que vocês fizeram…
-A história é longa mas vale a pena ser contada. Nós somos devotos do Grande Geb. Ao que tudo indica, o deus Geb é este aí que está diante de nós comandando o exército que tomou sua delegacia. Eu descobri o culto secreto dessa divindade egípcia nas aulas de história antiga na faculdade do estado. Encontrei alguns livros arcaicos, consegui uns alfabetos árabes antigos, pesquisei os hieróglifos egípcios. Finalmente, traduzi velhos alfarrábios que falavam do culto ao deus Geb, a Terra… o deus do mundo material, da prosperidade.
“Nos anos seguintes, eu me tornei professora de egiptologia, e o grupo que você acabou de conhecer começou a frequentar minhas aulas. Rico logo se destacou e confiei a ele minha ideia de que aquilo não se tratava apenas de mitologia – era real. Ele se entusiasmou com minha opinião e tornou-se meu braço direito numa pesquisa ambiciosa.
“Especializamo-nos na tradução dos hieróglifos e no domínio do árabe antigo. Tornamo-nos fluentes na língua dos faraós. Uma língua morta ressuscitou em nossa sala de trabalho. Era mágica a forma como os signos herméticos tomavam sentido, revelavam-se a nossos olhos a cada dia. Chegamos a passar uma noite inteira estudando… não, não nos tornamos amantes. Nossos interesses em comum iam muito além do sexo.
“Um dia, Rico apareceu com a Moira a tiracolo. Logo vi que o interesse dele pela moça não era meramente acadêmico, mas de qualquer forma ela era realmente apaixonada pela história dos antigos deuses egípcios. Por isso a admiti na nossa pesquisa. Josué, o grandalhão, e Caio e Russel, descendentes de árabes, apareceram depois. Apresentaram-se como praticantes de um antigo culto que tinha Geb como divindade central. Nunca descobri como eles me encontraram, eles não são estudantes da faculdade. Desconfio que Moira tenha algo a ver com isso.
“Alguns anos se passaram. Rico pegou o diploma mas continuou firme no nosso projeto. Consegui financiamento para uma viagem ao Egito e lá visitei a Universidade do Cairo. Passei horas e horas em entrevistas infindáveis com os maiores catedráticos daquele centro de estudos, e tudo que consegui concluir foi que estava mais avançada que eles no tema a que havia me dedicado.
“Frustrada, fui até a lanchonete da faculdade. Enquanto tomava um chá, um faxineiro se aproximou de mim. Era um velho porte encurvado e longa barba, mas com olhos vivos como raramente se encontra por aí. Ele me disse que eu poderia encontrar o que queria se procurasse no lugar certo. Eu ri, é claro. O que um faxineiro poderia saber sobre o Egito antigo? Mas parei de rir quando ele me disse: ‘todos se lembram do popular Rá, ou do diabólico Seth, mas o mais poderoso de todos, o que realmente faz diferença em nossas vidas é o discreto Geb’.
“Aquilo chamou minha atenção. Perguntei o que ele sabia sobre o deus da Terra. Ele mostrou um conhecimento vasto e detalhado, muito mais profundo do que o dos pesquisadores que eu havia consultado até então. Surpresa, perguntei o que um sábio como ele fazia limpando a sujeira dos alunos. Ele pareceu entristecer-se, e disse que pagava o preço da própria ambição. Era um estudioso, filósofo e alquimista. Tentou enriquecer por diversos meios, até que descobriu o papiro num mercado de ocultismo. Comprou-o por poucas moedas, o antigo dono não fazia ideia do real valor daquele artigo.
“Muitos anos atrás, ele tentou invogar o Grande Geb, mas perdeu o controle da situação. No começo fez fortuna, viveu num mundo de prazeres e pujança. Até que o deus se cansou dele, abandonou-o à própria sorte e retirou tudo o que havia oferecido. ‘Eu errei’ disse o velho. ‘Achei que poderia ter o mundo inteiro e acabei sem nada. Mas é possível, minha querida, é possível dominar o segredo da fortuna. Eu falhei, mas alguém pode ter sucesso’.
Uma noite, quando o calor parecia invadir nossas almas, Rico e eu acompanhamos o velho até os subterrâneos da Universidade do Cairo. A atmosfera estrangulante parecia se tornar mais densa à medida que avançávamos nas profundezas. Nosso guia andava à frente com uma lanterna nas mãos, confiante. De repente, fez um desvio à direita, abaixou-se entre os encanamentos de esgoto e parou diante de uma parede de tijolos.
“-É aqui – anunciou. Abaixou-se e removeu um tijolo solto. Retirou um tubo de papelão do buraco e exibiu-o como um troféu. ‘Aqui está o segredo’, ele disse.
“Fomos até a sala da manutenção, onde ninguém nos incomodaria àquela hora da noite. O velho nos obrigou a calçar luvas de borracha. Achamos graça, mas resolvemos anuir, eu e Rico. À luz de uma vela, abrimos o tubo e retiramos uma folha de dentro dele. O faxineiro emocionou-se visivelmente, mas não disse nada. Rico estendeu o documento sobre a mesa de madeira e logo começou a tremer nervosamente.
“ -Meu Deus, Felicia –ele disse. –Isso parece realmente antigo.
“ –Quão antigo? –perguntei, repentinamente interessada.
“ –Olhe – ele respondeu, simplesmente.
“Tomei o documento em minhas mãos com todo cuidado. Notei que era um registro feito sobre papiro, com hieróglifos que vínhamos estudando com afinco há mais de dez anos. No rodapé, símbolos herméticos remetiam à realeza. Mas o mais devastador foi identificar, no canto inferior do papiro, o selo pessoal de Ptolemeu I Sóter. Olhei para Rico, abismada.
“-Isso… isso é o que estou pensando? –balbuciei.
“-Tem todos os indícios de que sim. –ele respondeu, emocionado.
“Olhei de novo para a folha. Aquele símbolo indicava que o documento havia sido lavrado sob a dinastia de Ptolemeu I, o faraó incentivador das artes e do conhecimento, criador da mitológica Biblioteca de Alexandria.
“Minhas mãos tremeram, meu coração palpitou como um cabrito dentro do peito. Quis me apropriar do registro, fazer exames de carbono 14 e análises químicas para determinar a idade da peça, mas o velho frustrou meus planos.
“-Isso só sai daqui depois que eu estiver morto! –ele disse, impedindo qualquer discussão sobre o assunto.
“Conformados, resolvemos copiar todos os símbolos daquele papiro. Passamos o resto da noite neste trabalho. Quando terminamos, passamos a nos concentrar na tradução dos sinais. A resposta encontrada nos deixou aterrados.
“Tratava-se de uma formula ancestral, uma bula sem similares no estudo da egiptologia, que ensinava, passo a passo, todos os mecanismos necessários para invocar a divindade Geb e fazer com que ela concedesse riquezas sem limites ao autor do processo.
“Havia, porém, uma dificuldade: o ritual dependia de um determinado objeto sagrado: um colar de ouro maciço, com um pingente em forma de ganso. Uma joia de paradeiro desconhecido, que teria a capacidade de abrir o portal entre o mundo dos homens e o dos deuses.
“Voltamos do Egito e, por muito tempo, mantivemos nossas anotações em segredo, esperando o momento adequado de usálas. Até que vimos num noticiário que uma joia valiosíssima havia sido encontrada durante escavações na pirâmide de Kéfren, junto ao sarcófago do rei-divino.
“Olhamos a reprodução do artefato e não tivemos dúvidas: era a joia mágica, a chave para o portal entre mundos. Quando soubemos que o colar estaria exposto no museu, aqui mesmo na cidade, quase não acreditamos na nossa sorte. Sabíamos do descuido com que a arte e a cultura são tratadas no nosso amado Brasil, e esperávamos pouca ou nenhuma resistência à nossa invasão do Salão dos Reis Egípcios. O ritual exigia a presença de sete fieis, um deles, uma virgem que ofereceria o próprio sangue para acalmar o deus Geb assim que ele aparecesse.
“Esta foi a parte mais difícil. O ingênuo Rico passou longos dias procurando uma jovem que se encaixasse, até que encontrou a displicente Katia. Seduzido pela beleza da moça – que você mesmo pode comprovar, doutor – ele acabou explicando tudo a ela. A jovem, obviamente querendo divertir-se às custas do que julgava ser um ‘nerd’ amalucado, declarou-se apta para o sacrifíco. Bastaria que ela desse um cálice de seu sangue ao deus da terra.
“Ficamos cegos de cobiça. Desconfiei da virtude de Katia, mas resolvi tocar o projeto adiante. Não somos feiticeiros profissionais, e eu não imaginava que a qualidade do sangue ofertado fosse mais do que um detalhe dispensável no ritual.
“Já não podia mais esperar. Queria saber se o velho documento e a joia tinham mesmo um poder secreto e, mais importante, se isso poderia se tornar uma via de acesso para a riqueza infinita. Organizamo-nos, escolhemos a noite certa, fizemos um plano em que Josué teve o papel de dominar e amarrar o segurança do museu. Fácil demais para alguém como ele.
“O resto da história você conhece. Invocamos Geb, mas no momento do sacrifício de sangue fomos interrompidos pela PM. Dessa forma, o deus egípcio compareceu mas não encontrou o brinde que o tornaria tolerante e generoso. Pelo contrário, ficou decepcionado e furioso. Mas…
-Mas… -perguntou Tarcísio.
-Algo não está certo.
-Ora, pelo amor de Deus, Felicia! Nada está certo. Se o que você me disse é verdade, vocês podem ter decretado o fim da raça humana e do planeta. Sabe o que eu vi por aquela janela? Os monstros que vocês invocaram tomaram conta de todo quarteirão, e a julgar pelas nuvens de fumaça que podemos ver ao longe, a destruição vai muito além da nossa vizinhança.
Felicia cobriu o rosto com a mão sã e começou a soluçar.
-Não adianta chorar – disse Tarcísio. –Temos que descobrir um jeito de acalmar essa… essa… essa coisa! Você estudou tanto, pense numa solução. Talvez você e o “quatro-olhos” ali sejam os humanos que melhor conhecem o bicho papão egípcio que invocaram.
-Mas eu não sei como…
-Pensa, criatura! Do que ele gosta? Sangue de mulher que não seja virgem não resolve, e como eu acho que não há nenhuma virgem nas redondezas, temos que pensar em algum outro interesse desse monstro.
-Bom… ele… ele é o deus da terra, o deus da fertilidade e do sucesso nas colheitas. É o deus do mundo material, do materialismo… por isso o sangue da virgem tem um efeito narcotizante sobre ele. É como se isso saciasse sua libido exacerbada, segundo o papiro antigo. É o deus da fartura, resumindo… mas não vejo como usar isso em nosso favor.
Tarcísio pensou no que havia acabo de ouvir. Desolado, não encontrou nenhuma ideia que considerasse razoável. Colocou as mãos nos bolsos, disposto a fumar um cigarro. Sentiu um papel entre os dedos e o retirou. Era a senha da conta de Tavares.
Uma ideia alucinada atravessou-lhe a mente. Deus da fartura, da colheita bensucedida, do mundo material… dinheiro. Talvez dinheiro interessasse a uma divindade com prazeres tão humanos.
-Vamos descer! Comunique-se com esse grandalhão que ficou de vigia. Precisamos ser levados à presença do tal Geb.
Relutante, Felicia obedeceu.
Geb permanecia parado como uma estátua há várias horas, em frente à janela da delegacia no primeiro andar, observando a devastação que se espalhava pela cidade. Parecia em transe. Alguns soldados gigantes mantinham posição de alerta em redor do mestre, vigilantes. Tarcísio pensou rápido:
-Escuta, Felicia. Você vai ser minha intérprete! Eu preciso me entender com ele.
-Não, não me peça isso! Olha o que ele fez com minha mão, me aleijou para sempre da última vez que tentei falar com ele… não, isso não.
-Escuta aqui, sua biscate, vocês provocaram essa merda toda, agora vão me ajudar a limpar! Não tem negócio. Além do mais, algo me diz que essa coisa tem algum motivo muito forte para não ter matado você e seus colegas de sandices quando teve a oportunidade.
-Mas que motivo? O que você quer fazer?
-Uma proposta para o monstrengo. Vai, chama ele aí, diz que eu quero explicar umas coisas pra ele.
Depois de relutar por alguns minutos, Felicia resolveu atender ao pedido do delegado. Respeitando o protocolo indicado no papiro ancestral que estudou, a professora se dirigiu a Geb.
O deus virou-se, aparentando uma certa surpresa com aquela insolência. Exigiu que a interlocutora fosse breve em suas considerações.
Felicia explicou que aquele homem a seu lado era uma espécie de líder no mundo dos humanos – o deus não escondeu um olhar de desdém – e que gostaria de falar com ele a respeito de assuntos de seu interesse.
-Que seja breve! –exclamou Geb em árabe arcaico.
-Vejo que você está aqui contra a vontade; ou, pelo menos, não foi recebido como merecia. Mas eu me pergunto: isso é motivo para sua viagem ser uma grande perda de tempo? – disse Tarcísio, traduzido imediatamente por Felicia.
-Vá direto ao ponto, humano. Nesse momento sua vida vale menos do que a pena de um ganso. –respondeu o deus.
-Acalme-se, quero servi-lo da melhor forma que puder! É o seguinte, seu deus Geb: você viajou pra caramba só pra destruir tudo que vê pela frente? Acho que não. Nosso mundo tem prazeres que sua divindade nem imagina. Sabores, cheiros, mulheres, sensações de todos os tipos e durações. Tudo ao alcance da mão. Ou, talvez, nem tanto. Mas existe uma chave mágica para isso tudo. Uma chave que abre as portas do paraíso aqui na Terra.
-E que chave seria essa? –perguntou Geb, repentinamente interessado.
-O dinheiro.
-Dinheiro? O que é isso?
-É algo com que você pode comprar o que quiser.
-O que é comprar?
-Olha, seu Geb, com todo respeito, já vi que você tem muito a aprender sobre a vida aqui na Terra. E eu, modestamente, posso te ensinar muita coisa.
-E o que o faz pensar que eu não posso descobrir tudo sozinho, ou com a ajuda de um desses humanos que seguem o meu culto?
-É verdade, meu velho, mas pensa bem: sozinho vai levar mais tempo para você aprender tudo, e mesmo sendo eterno, economizar tempo é um bom negócio, não acha? E, sobre esses seus devotos, sem ofender, mas eles não são muito confiáveis, não é? Não fizeram a maior lambança quando te invocaram?
-E você, humano, é confiável?
-Não, mas sou fácil de controlar. É só me manter satisfeito, com alguns prazeres atendidos, que eu vou te servir como um cordeirinho.
Geb pensou um pouco e resolveu aceitar a proposta do delegado. Ergueu a trombeta e deu um novo sinal. Imediatamente todos os soldados suspenderam suas atividades destrutivas e permaneceram esperando, como marionetes sem manipulador.
-Reconheço sua sinceridade, humano. Comece logo, minha paciência é curta. E não pense em me trair.
-Antes vamos acertar alguns detalhes. Você e seus lacaios vão nos manter vivos e bem tratados pelo tempo que nosso acordo durar. Isso vale para mim, para os seus devotos e todos os humanos que encontrarem pela frente. E nós devemos desfrutar dos mesmos luxos que você.
-Pede demais!
-Isso não é negociável.
-Está certo. Mas quando eu tiver aprendido tudo que preciso, o armistício cai por terra.
“Até lá espero ter encontrado um jeito de te mandar de volta pro inferno de onde veio, seu boiola”, pensou Tarcísio.
-Bem, Geb, a primeira coisa a fazer é dar um jeito nesse seu visual. Você não vai conseguir sossego destacando-se dessa forma. Não tem um jeito de você assumir uma forma mais humana?
-E por que eu me rebaixaria a essa condição miserável de vocês?
-Para poder transitar por nosso mundo sem ser incomodado.
-Está bem, vou fazer o que me sugere. Mas cuidado, mortal! Um vacilo e eu arranco suas vísceras.
Geb transformou-se então em um homem de mais de dois metros de altura. Cabelos loiros, queixo robusto, músculos proeminentes. Concentrou-se por alguns momentos e materializou roupas mais adequadas para este novo papel: jaqueta de couro, calças pretas, botas e camiseta branca. A forma como essas roupas foram criadas revoltou o estômago de Tarcísio. Foi preciso muito esforço para não gritar de repulsa e ódio. Geb forjou um encantamento em que os cadáveres dos policiais foram se dissolvendo, como se o processo de putrefação tivesse sido acelerado mil vezes. Da matéria resultante, elaborou trajes comuns.
O delegado tentou conter o sentimento de aversão que tomou conta de seu ser depois de tão horrenda operação. Então falou:
-Seus amigos também não podem ficar andando por aí desse jeito, como múmias sem nariz. Dá pra resolver?
-Não consigo transformar toda a minha tropa em humanos. Vou fazer isso apenas com minha guarda pessoal. Os outros, encaminharei para a fronteira entre os mundos, onde permanecerão em estado de guerra, prontos para agir a um chamado meu.
Dessa forma cinquenta monstros tornaram-se humanos, homens e mulheres; todos altos como Geb, porém alguns loiros, outros ruivos, alguns corpulentos, outros magros como postes. Alguns adquiriram formas femininas de uma beleza sobrenatural. Os demais soldados de Geb desapareceram instantaneamente.
-Agora –disse Geb –mostre-me onde conseguir dinheiro.
-Está aqui –respondeu Tarcísio apontando para a valise de Tarcísio. –Tenho bastante para você e seus guardas – e para nós também, é claro! Mas apenas eu sei como fazer essa caixa mágica funcionar. Você precisa de mim para desfrutar deste mundo. Então não pisa na bola.
-Eu poderia torturá-lo até conseguir o segredo do encantamento.
-Cara, depois do que você fez, prefiro morrer a te dar alguma coisa de mão beijada.
Geb percebeu que a tortura seria uma perda de tempo e resolveu manter as coisas como estavam, pelo menos por enquanto.
Tarcísio subiu ao segundo andar e ordenou que os discípulos de Geb descessem e o aguardassem. Os presos comuns e o deputado permaneceram trancafiados. Tavares protestou:
-Você não pode me deixar aqui com esses monstros à solta.
-Relaxa que os feiosos foram embora. Logo o exército deve chegar aqui para ver o que aconteceu. Eles te libertam, se quiserem.
-Não faça isso… olha, vamos falar sobre a maleta, está bem? Sobre a senha… é muito dinheiro, delegado. Podemos dividir.
-Tarde demais, “meu caro”.
Tarcísio sentiu um inegável prazer ouvindo os gritos de protesto do deputado enquanto seguia para o elevador.
Minutos depois, os seis devotos de Geb, o próprio deus e um pequeno grupo de monstros com aparência humana ocuparam três viaturas da polícia e tocaram para o aeroporto com as sirenes abertas. O restante dos cinquenta invasores recebeu ordens de se misturar entre a população, por mais difícil que isso fosse para “pessoas” com estatura tão avantajada.
Pelo caminho, o delegado pode ter uma noção mais precisa dos estragos. Muitos mortos pelas ruas, carros tombados e incendiados, prédios destruídos. Tarcísio percebeu que os estragos se concentraram na região central da cidade. À medida que se afastavam da delegacia, a situação parecia menos grave. No caminho, Tarcísio encontrou um bloqueio do exército e parou o carro.
-Todo o centro da cidade está de quarentena, senhor – disse um soldado. –Houve algum ataque misterioso de madrugada, o senhor não sabe do que se trata?
-Não, não sei, soldado, mas estou com uma emergência. Eu e minha equipe fomos atacados na delegacia. Estou escoltando os sobreviventes para o hospital na zona norte.
-Tenho ordens para não deixar ninguém sair.
-Escuta, filho, sei que você está fazendo seu trabalho, mas é uma emergência. Aqui está meu distintivo. Por favor, libere a passagem.
O soldado ia argumentar novamente, quando Geb saiu do carro, seguido por dois de seus vassalos.
-Volte pro carro, senhor! –ordenou o soldado. –Volte…
-Não! –gritou Tarcísio.
Geb dirigiu-se para o soldado. Recebeu um tiro no braço mas continuou andando. Alcançou o militar e arrancou a cabeça dele com as mãos. Enquanto isso, os outros dois egípcios destroçaram a patrulha com um ataque rápido e eficiente, virando carros blindados como se fossem de isopor.
-Filho da puta! –disse Tarcísio esmurrando o volante. Pensou em tentar fugir, mas logo intuiu que isso não adiantaria de nada.
Geb voltou para o carro com seus soldados e ordenou:
-Siga.
-Você quebrou o acordo.
-Foi preciso.
-Eu devia descumprir minha promessa.
-E assim eu o mataria agora mesmo, e a todos os outros também.
Sem escolha, Tarcísio embreou o carro e partiu deixando para trás mais aquele foco de destruição.
A luz do sol encontrou as viaturas da polícia no pátio do aeroporto. Os televisores do terminal mostravam cenas do bloqueio militar em redor do centro. A legenda informava: “misterioso ataque terrorista no centro”.
Tarcísio foi até o balcão da empresa de taxi aéreo. Fez uma rápida negociação e conseguiu um jato particular executivo para todo o grupo: ele, Felícia, Rico, Josué, Caio, Russel e a bela Moira. Entre os invasores, o próprio Geb, os três vassalos homens e quatro criaturas transformadas em mulheres.
-Para onde vamos? –perguntou Geb.
-Vou levá-lo para conhecer meu mundo. –respondeu Tarcísio. “É uma forma de ganhar tempo”, pensou.
O piloto contratado notou algo de estranho naquelas pessoas mas não comentou nada. Limitou-se ao ofício para que fora designado. Decolaram, com um plano de voo preparado de improviso, incluindo um pouso no Rio de Janeiro como primeira escala.
Na cidade maravilhosa os visitantes conheceram as belezas que encantam o mundo inteiro. Mas a parada foi rápida. No fim do dia, já estavam voando novamente, dessa vez para a Europa.
O ritmo era frenético. Madri, Londres, Paris, Moscou, tudo visto a toque. Um mergulho numa praia australiana de manhã, um passeio na savanna da África no dia seguinte. Os olhos azuis da versão humana de Geb umedeciam-se de emoção diante dos cenários que Tarcísio lhe apresentava. Almoço nos alpes suíços, jantar na Alemanha. As mais fantásticas iguarias do mundo desfilaram diante de Geb e seus companheiros. A estranha predileção dos gigantescos visitantes por frutas e verduras não chegou a despertar a curiosidade dos garçons, mas tampouco passou despercebida.
No Egito, o deus quis visitar o vale dos reis. À luz da lua, mãos recobertas de trapos começaram a brotar da areia em torno dos visitantes. O piloto, que até então nada sabia sobre a identidade de seus passageiros, tentou fugir desesperado, mas foi contido por um dos soldados de Geb, que o hipnotizou para que permanecesse alheio ao que se passava. Mas o delegado e os outros não tiveram o mesmo tratamento e presenciaram tudo.
Aquelas mãos que buscavam a superfície escavavam sem descanso, até que uma horda de mortos-vivos ocupou a planície toda. Alguns daqueles espectros traziam instrumentos musicais tão velhos quanto eles, e insinuavam uma dança de saudação. A energia daquele reencontro tomou conta do lugar. Todos, mortos, vivos e deuses, começaram a se mover num ritmo frenético. Mesmo Tarcísio, envolvido por aquele cenário fantasmagórico, não conseguiu evitar os movimentos daquela dança profana. Os sons guturais das gargantas descarnadas se espalharam entre as dunas como uma tempestade de areia. A dança dos mortos só terminou quando os primeiros raios da alvorada se espalharam entre os montes que formam o vale.
No dia seguinte partiram para as cercanias de Gizé. Pareceu comovido diante das pirâmides. Quando se aproximou da Esfinge, o gigante de pedra se moveu inesperadamente. Pareceu abaixar a cabeça numa reverência muda, e antes que alguém pudesse falar alguma coisa, voltou à posição original, deixando em todos a dúvida sobre se aquilo realmente tinha acontecido ou não passava de uma alucinação.
-Estou perdendo a noção do que é real e o que é sonho – comentou Tarcísio, em voz alta.
-Ora, pequenino, qual a diferença? – comentou Geb, sarcástico.
E assim passaram-se os dias, de diversão em diversão, bacanais em bacanais, onde o dinheiro jorrava como uma cascata infindável. Tarcísio custou a admitir que estava gostando daquilo tudo.
-Quero um lugar só para nós –anunciou Geb. –Que seja retirado mas bem provido destas delicias que vimos experimentando. E que não falte aquele pó branco que você me ofereceu ontem à noite. Magia poderosa.
“Era só o que faltava, um deus viciado em cocaína”, pensou Tarcísio.
O delegado encontrou o que julgava ser o lugar ideal numa região dos Montes Apeninos Centrais, perto de um vilarejo de criadores de ovelhas. Lá, um grande vinhedo com uma mansão de três andares e dezenas de quartos seria a base ideal para um deus em férias.
Chegaram ao local em trinta de julho, dez dias depois da invasão das ordas egípcias. Instalaram-se e logo organizaram um grande bacanal. Uma orgia que durou a noite toda.
Na manhã seguinte, Tarcísio notou uma certa tristeza nos olhos de Moira. Não era apenas a ressaca do vinho. Algo mais havia ocorrido. Perguntou a Felícia a respeito:
-Ela teve uma grande decepção ontem, doutor, contou-me tudo, chorando muito, logo depois do que aconteceu. Moira aproveitou um momento em que Geb se afastou dos outros convivas e foi se oferecer para ele no jardim da mansão. Deixou cair a túnica, mostrou seu corpo perfeito e implorou para que o deus a amasse. A criatura, grosseira e insensível, riu-se às gargalhadas. ‘Que prazer uma criatura tão insignificante como você poderia me proporcionar? Já viu minhas companheiras? Notou a beleza mágica que elas possuem? O que mais eu poderia querer do sexo além das maravilhas que elas me oferecem?’.
Tarcísio não acreditou que seu algoz pudesse ser tão burro a ponto de dispensar uma mulher interessante como Moira. Mas desistiu de tentar entender. Os deuses certamente tinham razões que a razão desconhece.
Acabou se vendo sozinho com a moça no salão de jogos. Aproximou-se um tanto sem jeito, “que diabo, pareço um adolescente”.
-Oi –tentou puxar conversa.
-Pois não, doutor –respondeu Moira, formal.
-Pára com isso de doutor, ok? Já passamos uns pedaços e tanto juntos… -Tarcísio se arrependeu do que estava começando a dizer –bem, eu, você, a Felicia, os rapazes… Estamos fritos, não estamos? E o pior é que quando acabar, ninguém vai se lembrar de mim.
-O senhor não tem família, delegado?
-Já falei pra parar com essa história de “senhor doutor”, senão eu te prendo.
O graçejo tirou um pouco das nuvens que Moira sustinha nos olhos tristes e provocou um radiante sorriso. “Como é linda”, descobriu de repente o policial.
-Eu tenho família, quer dizer, uma esposa, mas acho que ela está aproveitando bem a minha ausência… Ela arranjou um amiguinho… íntimo… no trabalho; não posso culpá-la, fui bem displicente com as necessidades dela, só pensando em trabalho, trabalho… quer saber? Eu a culpo sim, aquela vagabunda…
O delegado corou pela segunda vez naquela curta conversa, e pediu desculpas pelo comentário.
-Mas olha só que ridículo –confessou Tarcísio -eu nem te conheço e estou aqui abrindo minha vida pra você.
-Não se preocupe com isso. Pode confiar em mim –disse Moira, com um encanto na voz.
“Será mesmo que eu posso confiar em você, moça bonita?” perguntou-se em silêncio Tarcísio, interessado. Sem achar uma resposta para esta pergunta, pelo menos passou uma das manhãs mais agradáveis que já teve na vida, conversando com aquela beldade e, por algumas horas, esquecendo a situação extravagante em que se encontrava.
Naquela mesma tarde Geb chamou Tarcísio para uma caminhada pelos prados em redor da mansão. Caminharam entre as pedras que brotavam do solo como troncos de árvores. Subiram a campina e fitram o vilarejo lá embaixo, ao entardecer. Tarcísio disfarçava o asco que aquela companhia provocava nele. O outro, porém, parecia embevecido.
-Nosso mundo –disse Geb depois de uma longa meditação –não tem nada disso. É frio e sem graça, só uma luz cegante envolvendo os vultos dos deuses, um silêncio aborrecido… Nunca participei de nada tão animado como essas festas que vocês oferecem por aqui. Acho que devo agradecê-lo por me ciceronear neste passeio pela Terra, não? Obrigado, Tarcísio. Talvez eu deixe você viver quando chegar a hora de voltar para casa.
Os dias se arrastaram entre festins e bacanais. O fôlego de Geb parecia inesgotável. Mas algo mudava gradativamente. À medida que o deus se entregava aos prazeres humanos, ele parecia adquirir cada vez mais características da raça que tanto desprezava. Seu corpo ia adquirindo um volume abdominal muito característico do exagero do alcool. Seu nariz apresentava-se constantemente irritado e vermelho, pelo consumo de cocaína. Seus olhos, permanentemente avermelhados. E as festas recrudesciam em imoralidades que pareciam não mais satisfazer a divindade. “Logo vai chegar o momento em que este cara vai se enfadar e cobrar o preço disso tudo cortando nossas gargantas”, preocupou-se Tarcísio. Era preciso pensar numa solução, e rápido.
-Definitivamente há algo errado -disse Felicia durante uma conversa reservada com Tarcísio e Rico. –Desde a chegada de Geb eu desconfio de alguma coisa.
-Olha a heresia, Felicia. Não se pode questionar os desígnios do poderoso Geb, santo seja seu nome.
-Calaboca, “quatro-olhos”. Essa tua fé idiota te emburreceu até o limite. Deixa a professora falar.
Humilhado com a reprimenda do delegado, Rico calou-se, amuado.
-O primeiro sinal foi o excesso de violência das ordas divinas. Uma brutalidade animalesca que não combina com o perfil de Geb. Outro indício apareceu diante dos meus olhos alguns dias atrás, mas demorei a notar o que era. Ora, um deus da fertilidade recusando sexo com uma mulher lindíssima como Moira? É absurdo, inaceitável.
Tarcísio traiu um insuspeitado ciúme numa carranca mau humorada, mas ninguém notou esse vacilo.
-O que você está pensando? –perguntou Rico, timidamente.
-Que talvez a criatura que hospedamos não seja o grande Geb, santo seja seu nome.
-E quem seria? –perguntou o delegado.
-Não sei, precisaria pesquisar… mas de qualquer forma, uma coisa é certa: só tem uma maneira de a gente descobrir a verdade, e é concluindo o ritual de invocação do grande Geb, lá no museu em São Paulo.
Tarcísio irritou-se e riu ironicamente:
-Você está louca, só pode ser. Endoidou de vez. Olha a merda que deu quando vocês tentaram pela primeira vez!
-Você tem alguma outra ideia para tentar consertar tudo? Logo Geb vai se cansar da gente, e acho que não teremos a mesma sorte do velho que me revelou o segredo do papiro. Aquele ancião sobreviveu, ainda que na miséria absoluta. Mas este Geb que conhecemos tem métodos mais violentos para mostrar sua decepção, sabemos disso.
-Mas Felicia, o centro velho de São Paulo está um pandemônio desde a nossa saída. Exército guardando as ruas, cientistas vasculhando tudo em busca de uma pista do que aconteceu. Eu tenho visto os noticiários quando vou atrás de recursos para as festas. Como nós vamos convencer Geb da necessidade de voltar para lá?
-Não vamos. Temos que fugir.
-Ok, problema número dois: onde conseguir um cálice repleto do sangue de uma jovem?
Essa era mesmo uma boa pergunta. Na vila com certeza existiam muitas adolescentes virgens. Mas como pedir a elas a doação de alguns mililitros de sangue sem despertar suspeitas ou revoltas?
-Só tem um jeito: escolher uma vítima e roubar um pouco de sangue – disse Felicia.
-Isso é nojento! – protestou Tarcísio.
-Mas é a única saída –concordou Rico.
Nos dias seguintes, enquanto o bacanal atingia seu ápice, Tarcísio afastou-se sorrateiramente da mansão, acompanhado de Caio e Russel. Havia escolhido a jovem que lhe forneceria o sangue necessário para o encantamento, uma adolescente que todos na vila apontavam com criatura das mais virtuosas. “Espero que eles estejam certos”, meditou o delegado.
Tinha preparado tudo com esmero: bolsa de coleta, anticoagulante, agulhas, todo o material necessário para uma retirada de sangue. Teriam que ser rápidos: colher o sangue e fugir para o Brasil naquela mesma noite, usando o jatinho alugado.
Quando chegou à vila, Tarcísio e seus companheiros mantiveram-se nas sombras, espreitando. Eram nove da noite. A pequena apareceu logo, vindo dos lados da praça, carregando um balde com água. A rua estava deserta.
Tarcísio esperou o momento exato e deu a ordem. Russel e Caio se aproximaram da menina rapida e silenciosamente. Caio pressionou um lenço embebido em clorofórmio contra o rosto da jovem, que logo desmaiou. Os dois carregaram a moça desmaiada para onde Tarcísio aguardava com tudo pronto.
Uma rápida incisão, algumas golfadas do líquido vermelho e quente e logo a bolsa com anticoagulante ficou cheia.
-Que fazemos com a menina? –perguntou Caio.
-Deixe-a aí – respondeu o delegado.
Os três voltaram correndo para a mansão nas montanhas. Reuniram o grupo de seguidores de Geb e organizaram a saída rapidamente.
Geb, drogado e bêbado, cercado de suas ninfas sensuais, não percebeu nada. Os outros invasores, igualmente envolvidos pela música e pela dança das mulheres que foram chamadas para a orgia, não se deram conta do que acontecia.
Horas depois, o jato pousava em Cumbica com os adoradores de Geb e o delegado Tarcísio. Rapidamente eles tomaram o rumo do museu. Não foi fácil despistar os soldados encarregados dos bloqueios.
-Conheço o meu bairro como se fosse o meu quarto. Dou um jeito –garantiu Tarcísio. E foi bem sucedido. Por uma rede de becos sem saída que escondiam passagens secretas, buracos camuflados ou túneis de esgoto, logo o museu foi alcançado. Estava deserto e trancado, sem nem mesmo um segurança. A destruição por ali havia sido grande quando Geb chegou. Nada tinha sido recuperado ainda.
-Espero que o lugar não tenha sido saqueado –comentou Josué.
-Duvido. O medo é o melhor segurança que existe –refletiu Tarcísio.
De fato, na Sala Egípcia, apesar da desordem, todos os objetos ainda estavam jogados pelos cantos, esquecidos. Foi preciso revirar alguns escombros perto do mostruário para encontrar o colar dourado com o pingente de ganso.
-Que tenha início o ritual, não temos tempo a perder.
-O que será que vai acontecer, Felicia? Se o Geb que conhecemos for o verdadeiro, talvez ele se materialize em nossa frente. Aí é morte certa!
-Já estamos condenados mesmo, é só uma questão de tempo. Mas se o tal deus for um usurpador, é possível que o verdadeiro Geb nos poupe e se vingue apenas do impostor –respondeu a professora.
-Chega de ficar cogitando. Vamos agir! –decidiu Tarcísio.
Sob a orientação nervosa de Felicia, os sete formaram um círculo no meio do salão. Ela prendeu o colar em torno do pescoço e começou a entoar um velho cântico árabe. Rico se moveu em direção ao centro do círculo e traçou uma longa cruz com um pedaço de giz. Na extremidade contrária à dos braços da cruz, desenhou um semicírculo oval. Depois disso, voltou a seu lugar. Então foi a vez de Moira acender uma vela e colocá-la dentro do semicírculo que Rico havia desenhado. Josué colocou outra vela acesa no ponto onde os braços e o tronco da cruz se encontravam. Caio colocou uma terceira vela no braço esquerdo, e Russel, no braço direito da cruz.
Felicia parou de entoar o canto misterioso e proferiu uma oração em tom solene. Depois olhou para Tarcísio;
-O sangue –disse. –Coloque-o no cálice.
Retirei a bolsa do isopor, abri-a e verti seu conteúno numa taça de metal que estava entre os objetos do museu.
-Coloque a taça na ponta da cruz.
Tarcísio atendeu. Imediatamente, pela janela do museu, o céu do amanhecer tornou-se sombrio, coberto de nuvens de tempestade que se moviam numa velocidade impossível. Alguns trovões se fizeram ouvir enquanto relâmpagos cortavam o firmamento. Um vento sobrenatural invadiu a sala e fustigou os corpos dos sete ritualistas, mas apesar de sua força, as chamas das velas permaneceram plácidas em seu bruxulear discreto.
De repente a conhecida figura de Geb surgiu no meio do círculo. Não transformado em humano, mas na sua imagem original, simiesca e monstruosa.
-Malditos! –rugiu o monstro, em bom português. Havia aprendido a língua durante suas aventuras ao redor do mundo.
-Estamos perdidos! Ele é mesmo o grande Geb, santo seja seu nome! – exclamou Rico, apavorado.
-Vocês vão morrer, infieis.
Quando o deus se preparava para esmagar as cabeças de um por um dos seus seguidores, um estrondo ensurdecedor ribombou pelo museu e fez as paredes tremerem. O soalho começou a ser partir numa sinfonia de estalos. Moira desequilibrou-se e quase caiu num mar de fogo mágico que se descortinava debaixo de seus pés. Tarcísio a sustentou no último segundo.
Geb parecia tão surpreso e assustado quanto os outros presentes. Olhava para todos os lados com expressão atônita.
Uma luz ofuscante começou a arder na chave desenhada no chão. A aura aumentava de tamanho a cada segundo e parecia tomar uma forma gigantesca. Então surgiu uma figura humanoide, de uns cinco metros de altura. Mesmo Geb, do alto de seus três metros, ficou pequeno diante do recém-chegado.
Tarcísio, que ainda segurava Moira entre os braços, olhou para Felicia. A professora parecia em choque. Olhos muito abertos, boca escancarada balbuciando algo incompreensível. Rico, da mesma forma, estava absolutamente fora de si. Copiosas lágrimas escorriam de seus olhos, seus joelhos se dobraram. Os outros três devotos haviam desaparecido.
O delegado ergueu os olhos e viu o outro deus diante de si pela primeira vez. Uma figura humana em tudo, exceto pelo tamanho gigantesco. A cabeça ostentava uma tiara encimada por um ganso, quase idêntica àquelas que os devotos usavam quando entraram na delegacia, quase um mês atrás. O vulto robusto e imponente, o rosto de uma dignidade natural e espontânea, olhos de um negro absorvente.
A conversa que se seguiu foi traduzida para Tarcísio por Felicia, pelo menos em seus pontos fundamentais, alguns meses depois. O recém-chegado foi o primeiro a falar.
-Quem ousa invocar o Grande Geb?
Ninguém teve ânimo para responder. O deus então notou o desenho no chão e o cálice com a oferenda. Tomou-o nas mãos gigantescas como se fosse um copo de brinquedo. Derrubou o conteúdo sobre a língua e pareceu ganhar um novo ânimo. Seus olhos se tornaram benevolentes, sua postura mais relaxada. Mas essa mudança durou pouco. Quando notou a criatura a seus pés, enfureceu-se de novo!
-Ah! Maldito! Falsário! Então foi você que roubou meu símbolo? Eu devia ter desconfiado quando não o encontrei na nossa morada! Macaco infeliz…
-Alteza, eu posso explicar…
-Cale-se, verme! Escravo de Thoth! Inseto insignificante.
Aquele que era o verdadeiro Geb então fez um leve gesto com as mãos e arremessou o impostor contra as paredes do museu, que ruíram com o impacto. Geb saiu no encalço do rival do lado de fora, na rua.
-Estão todos bem? –perguntou Tarcísio assim que os gigantes saíram.
-Não! Josué, Caio e Russel foram engolidos pelo fogo mágico que brotou do chão! –anunciou Rico, ainda chorando muito.
-Temos que sair daqui, o prédio vai desabar!
Tarcísio tomou Moira no colo e seguiu para as escadas, acompanhado de perto por Rico e Felicia. Só tiveram tempo para alcançar os degraus antes do que restou do soalho na Sala Egípcia vir abaixo. Correram como loucos em direção à saída. Já na calçada, uma cena bizarra tinha cenário.
Tarcísio viu o deus Geb, altaneiro e forte, com o outro a seus pés. De todas as partes, vinham ao local os monstros que haviam permanecido na Terra para fazer companhia ao impostor. Logo uma pequena multidão de criaturas egípcias perfilou-se na rua. Todos eles, antes tão mortíferos e violentos, pareciam absolutamente esmagados pela autoridade de Geb. O poderoso tomou novamente a palavra.
-Ah! Babuíno! Dessa vez sua ousadia foi longe demais. Quem lhe permitiu tomar o meu lugar entre os homens? Essa tua insolência vai lhe custar caro. Devolva-me o meu signo.
Obediente e trêmulo, o cinocéfalo retirou a mitra com o ganso e a entregou a Geb.
-Criatura infeliz. Fez um estrago irremediável por aqui. A companhia de um deus tão sábio como Thoth não lhe trouxe nenhum proveito, pelo que vejo. Vai-te embora, verme. Vai-te embora! Quando eu voltar para casa, pensarei num castigo adequado. Nem mesmo Thoth poderá protegê-lo.
-Mas veja, meu senhor! Não toquei em nenhum de seus filhos… o seu culto voltou a povoar a Terra, encontrei sete devotos. Não feri nenhum deles, pelo contrário, protegi seus filhos como se fossem meus.
_Mentiroso! –gritou Felicia. –Você quebrou minha mão esquerda, macaco! Não sei como me deixei enganar por uma criatura baixa como você.
Babuíno rugiu e se atirou contra a mulher, mas foi golpeado em pleno ar por Geb. Babuíno caiu com estrondo contra o asfalto, e logo experimentou o peso das sandálias de Geb sobre seu pescoço.
_Não se atreva a ferir minha profetiza, inseto! Vá para nosso mundo e fique por lá.
Soltando um guincho animalesco, Babuíno e seu séquito desapareceram no ar.
Então Geb olhou para Felicia, Rico, Tarcísio e Moira.
-É verdade? Meus súditos voltaram a andar sobre a terra?
-Sim, grande Geb, santo seja seu nome –respondeu Felicia ajoelhando-se, no que foi seguida por Rico e Moira.
-Ah, quem diria? Essa é uma boa notícia. Mas agiu muito mal, profetiza, não seguiu os passos corretos da invocação. Abriu o portal mas não conseguiu me chamar. Babuíno, oportunista, resolveu se aproveitar da situação e passar uma temporada neste mundo. Um mundo tão bonito, tão sedutor. Temo que ele tenha se corrompido por alguns prazeres não tão nobres, aos quais os humanos estão muito afeitos.
-Estou pronta para o castigo, divindade! –respondeu Felicia.
-Castigo? –disse Geb. –Já foi castigada o suficiente. Apenas não me invoque mais. Algumas portas devem permanecer fechadas. Basta que mantenha sua fé e estude bastante. Não se meta mais em mistérios que não conhece.
-Sim, divindade.
-Mas, senhor, o invocamos com um objetivo. Um pedido… gostaríamos de saber o segredo da riqueza infinita.
Geb olhou para Rico com ar repreensivo. Felícia quase fuzilou o colega com o olhar. Tarcísio quis matar o outro, se tivesse um revólver. Geb respondeu:
-Não acha que este segredo vale menos que sua vida, humano?
Rico calou.
-Mas onde estão meus outros fieis? O macaco falou em sete. Conto apenas três. Você seria um deles, humano? –perguntou para Tarcísio.
-Sem ofensa, Geb, mas não. Quer dizer, eu sei que você existe, mas daí até adorar você vai uma distância… e depois do que seus colegas egípcios aprontaram por aqui, você vai concordar que eu não tenho muitos motivos para adorar vocês.
-O humano é sincero, respeito isso. Está bem, onde estão os outros?
-Morreram, divindade! –afirmou Rico, choroso.
-Bem, isso é triste, mas não fiquem deprimidos. Vou levá-los comigo para a terra dos mortos.
Geb fez um gesto e os corpos dos três jovens saíram dos escombros do museu, flutuando no ar. Geb, então, chorou sobre eles, umedecendo-os completamente. Depois disso, com um gesto, encaminhou-os para a eternidade.
-Serão felizes, garanto, assim como vocês, se permanecerem fieis –disse Geb ao fim do curto ritual.
Dizendo isso, ergueu os braços e começou a brilhar intensamente.
-Saudações, humanos. Espero que nunca mais nos encontremos. Adeus.
Geb desapareceu, deixando para trás um atônito grupo de pessoas.
“Então foi por isso que o tal do Babuíno não matou Felícia aquele dia, na delegacia. Ele tinha consciência de que se fizesse mal para um dos devotos, o castigo de Geb seria muito pior”, pensou Tarcísio, com uma lógica sherlockiana.
Dois anos se passaram desde que o centro de São Paulo foi atacado por Babuíno. Desde então, muitos livros foram escritos sobre o acontecido. Os noticiários levantaram infinitas hipóteses que nunca se confirmaram sobre as causas da catástrofe. Documentários e programas de auditório tocaram no assunto, todos equivocados. Os que sabiam a verdade nunca se manifestaram sobre os fatos.
Na sua sala, na delegacia reformada, Tarcísio recolheu os últimos pertences que restavam. Olhou para o armário e encontrou uma antiga foto eu que aparecia ao lado da ex-mulher. Teve um momento de nostalgia que foi interrompido pelo telefone.
-Oi, sou eu.
-Oi, Karen. –respondeu o delegado.
-Então, hoje é seu último dia? Vai conseguir viver sem a polícia?
-Tenho certeza que sim.
-Bem, sem mim você parece conseguir se virar muito bem, não?
-Isso é uma cobrança, Karen? Porque se eu bem me lembro foi você que me deixou por causa daquele babaca do seu escritório.
-Calma, calma, não é uma cobrança, eu sei que ferrei com tudo… mas se você não fosse tão devotado ao trabalho na época, talvez a gente pudesse ter ficado juntos.
Um silêncio se seguiu… Tarcísio relembrou como foi difícil voltar para aquela mesma delegacia depois de tudo que aconteceu. Como os registros da invasão do museu pelos adoradores de Geb haviam sido destruídos, ele resolveu esquecer a história. Mas teve muitas explicações a dar: policiais mortos e corpos desaparecidos, prisioneiros assassinados, entre eles um político influente; ele sumido por várias semanas e repentinamente de volta…
A maior parte das confusões foram atribuídas aos estranhos terroristas, disfarçados de egípcios, que várias testemunhas disseram ter visto destruindo o centro da cidade e invadindo a delegacia. Quanto ao próprio sumiço, Tarcísio achou melhor contar que havia sido sequestrado e perdera a memória de onde estivera ou o que fizera.
A corregedoria desconfiou mas não teve como desmentí-lo. Psiquiatras forenses julgaram a história condizente com o trauma que o policial tinha enfrentado.
Depois, a família… Tarcísio chegou em casa, para surpresa da mulher. Sentiu sinceridade no alívio dela, ao vê-lo bem. Tem que confessar. Mas aquilo já não significava mais nada para ele. Não poderia jamai retomar a vida normal depois do que passou nas mãos de Babuíno e seus asseclas.
Resolveu tomar uma atitude, se separar, pedir aposentadoria. A corregedoria ainda o aborreceu com uma conversa sobre uns milhões do deputado morto, dinheiro de corrupção; não sabia de nada? Não, não houve tempo de investigar aquilo, a delegacia invadida por “terroristas”…
-Alô?…
-Estou aqui –disse Tarcísio. –É só que… é tarde demais para pensar no que poderia ter acontecido…
-Boa sorte, “Tarqui”, de verdade.
Tarcísio não se lembrava da última vez que a esposa tinha se dirigido a ele com aquele apelido carinhoso. Desligou sem responder e começou a pensar em outra coisa. Quando olhou para a porta, viu Moira, adorável numa camiseta que exibia o umbigo sexi e uma minissaia provocante.
-Oi, está pronto?
-Só mais um minuto, meu bem –respondeu Tarcísio. –Sabe, essa roupa fica bem melhor em você do que aquela túnica que usava quando nos conhecemos, aqui mesmo no distrito.
-Tarcísio, não começa. Minha fé continua inalterada. Só meus trajes mudaram um pouquinho.
Tarcísio sorriu. Mexeu no armário e pegou a valise do deputado Tavares, o velho corrupto cujo corpo foi encontrado dentro da delegacia, mutilado e com marcas de garras semelhantes às de um símio, logo depois dos ataques misteriosos. O policial abriu a maleta, deu uma olhada no decodificador e, instintivamente, pressionou o bolso do paletó, onde mantinha as três linhas de números e letras que abriam o portal do paraíso. Muito dinheiro havia sobrado da aventura com Babuíno, apesar dos gastos indecentemente altos que cometeram naquelas semanas de desvario.
-Agora estou pronto, querida. Aposentadoria, aqui vou eu. Você gostaria de jantar em Veneza hoje? –perguntou o ex-delegado, enquanto jogava o distintivo sobre a mesa e apertava o corpo de Moira contra o seu.
Do outro lado do oceano, no subsolo da Universidade do Cairo, um velho agachou-se com dificuldade estalando as juntas calcificadas e removeu um tijolo solto de uma parede. Do buraco retirou um tubo de papelão e, de dentro dele, um papiro milenar. Soltando o esfregão que usava todos os dias no trabalho, o ancião desenrolou o documento e tomou uma decisão:
-Por que não? Devo tentar de novo! Quem sabe o grande Geb, santo seja seu nome, não tenha se tornado mais generoso com o passar dos anos?
O céu se fechou em nuvens negras sob o anoitecer do Egito.
FIM
MC, 8,9 /1/11


Comentários
Postar um comentário