Imortal

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Se alguém fizer uma enquete, seja lá onde for, sobre o que as pessoas esperam do próprio futuro; se querem ser reconhecidos pela posteridade ou cair na vala comum dos medianos, certamente todos escolherão a glória, o renome, a consagração.
Ninguém aceita passivamente o anonimato. Não nascemos para nos conformarmos com a mediocridade. Somos todos geniais, em princípio. Se não nos tornarmos célebres teremos traído a própria natureza humana.
Juvenal pensava desse jeito. Para ele não bastava a popularidade instantânea dos reality shows. Não bastavam os quinze minutos de fama. Ele queria a eternidade.
Enquanto a massa aplaudia o cantor famoso, a estrela de novela ou a mulher-fruta, Juvenal se deleitava com as biografias de Sócrates, Da Vinci, Einstein. Pessoas que são comentadas mesmo muitos anos depois de mortas. Gente que fez algo importante.
Funcionário público do setor de tributos da prefeitura, sócio do Clube do Livro, jogador inveterado de xadrez embora não tão talentoso, Juvenal apreciava dormir com a janela do quarto aberta, mesmo no inverno. Gostava de café com leite, macarronada, assistir ao futebol pela TV.  Uma pessoa comum. O que o distinguia era a ideia fixa, a obsessão, a busca constante. Procurava uma invenção, uma descoberta, um novo conceito, teoria ou filosofia que o tornasse original, criador. Um novo “Brás Cubas”, porém vitorioso e menos delirante. Tavares, o colega mais próximo com quem Juvenal teve a iniciativa de dividir as angústias, disse milhares de vezes que isso não existe: a ideia original. “Tudo já foi pensado”, gostava de repetir entre um cafezinho e outro, na copa da prefeitura.
O tempo foi passando e Juvenal continuou aferrado a seu propósito. O único problema era que o pobre funcionário não tinha a menor ideia de qual seria seu “talento nato”. Nem desconfiava em que área teria mais chance de êxito. Uma dificuldade séria… Talvez um pouco por conta disso, ele mergulhava nas histórias de seus ídolos, esquecendo-se por vezes de escrever a própria.
Os dias passados dentro de casa, sozinho, indicaram a Juvenal o caminho da conformidade. Parou de lutar, de buscar, de sofrer. Considerou um tanto resignado que ser medíocre não era tão terrível assim. Colocou-se no lugar da raposa que tripudiava sobre as uvas inalcançáveis. A essa altura viveu mais do que muitos inventores, cientistas, artistas. Também teve muita companhia ao longo da vida, enquanto os “imortais” , além de, ironicamente, morrerem cedo, foram todos condenados ao Olimpo da solidão. A generalização ajudava a deglutir esse falso consolo para suas frustrações.
A velhice chegou, sem pedir licença. A saúde e a inteligência se perderam sem deixar qualquer contribuição relevante para a humanidade.
No hospital, apenas esperando a “maldita” chegar, Juvenal recebeu a visita do filho. Belo rapaz, inteligente e dinâmico, desentendeu-se com o pai quando anunciou que queria ser artista. “E isso lá é trabalho?”, disparou Juvenal à época. Romperam relações depois de um longo e triste bate-boca. Ficaram afastados por anos. Mas no ocaso de uma vida, alguns laços de sangue mostraram-se mais resistentes do que o tempo e o rancor.
Rodrigo entrou no quarto atravessado pelo medo de outra briga, depois de tanto tempo. Foi acolhido pelo pai com um largo e cansado sorriso. Conversaram muito. Juvenal mais ouviu do que falou. O garoto estava muito bem na carreira, já tinha participado de uma “coletiva” e organizado duas “vernissages”.
Juvenal sentia-se reviver com o entusiasmo do filho. “Quem sabe ele não vai além?”, pensou com certa amargura, lembrando-se do quanto recriminou os pais apaixonados que diziam exatamente isso dos filhos, depositando na prole as esperanças frustradas e os sonhos de grandeza.
Apertou a mão de Rodrigo com a força que ainda lhe restava. Abençoou-o tardiamente. Morreu dois dias depois daquela conversa.
Dez anos se passaram. Rodrigo tornou-se nome consagrado no meio artístico. Colocou telas nos principais museus contemporâneos das Américas. Um de seus trabalhos é especialmente sedutor. Está ao lado de um “Jackson Pollock” no Guggenheim Museum. Fascina críticos e leigos, intuitivos e estudiosos da arte. Uma tela que mostra, entre figuras apenas sugeridas e cores frias, um homem numa mesa de trabalho, cercado de documentos e máquinas de calcular.
“Juvenal” é o nome do quadro. Nome que, ao que tudo indica, irá para a galeria dos imortais. A história do homem que inspirou a tela, porém, quase ninguém conhece.

FIM

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