Perdido

solidao
I
Acordou e mal conseguiu estancar a tristeza. Quis morrer. É sempre assim quando sonha com o filho. O menino brincando despreocupado, correndo para ele com os braços abertos, gritando “papai, papai”, depois lançando-se em seus braços e cobrindo-o de beijos.
Ainda no torpor da sonolência ele permaneceu com o cheiro do filho nas narinas _ um delicioso cheiro de roupa limpa e doce de leite. É como se o menino ainda tocasse sua face com os lábios infantis. Uma presença tão forte quanto irreal.
Já se passaram quinze anos e a dor só fez aumentar. A falta de notícias sobre o destino da criança é pior do que a certeza da morte. Se soubesse que o menino está morto, pararia de procurar e, talvez, de sofrer.
Mas é a dúvida que o impede de dar um tiro na cabeça. Fez da procura pelo garoto uma obsessão. Único motivo para se levantar de manhã, mesmo com toda a amargura que lhe dilacera o peito.
Ele se arrasta do quarto para o banheiro e cumpre o mecânico ritual de se olhar no espelho. Depois vai até a porta, pega o jornal e o abre na página dos obituários. Procura uma pista, um indício, um sinal. Sai de casa e vai direto ao IML.
Como sempre, há pelo menos um cadáver de jovem. Ele dedica especial atenção aos indigentes. Suborna o funcionário do Instituto, vai até as geladeiras e dá longas olhadas nos corpos, mesmos daqueles que têm família reconhecida, só para ter certeza de que não é o filho desaparecido, arrastado para uma vida diferente terminada em violência. Procura seu próprio rosto naqueles mortos mal chegados aos dezoito anos. Alguma semelhança, algum traço que revele o filho perdido.
A maioria das mortes nesta idade é violenta e terrível. Ele poderia fazer um estudo sociológico ou tratado sobre marginalidade com o que aprendeu observando inúmeros corpos nos últimos quinze anos.
Todos os dias ele sai do IML quase desapontado por não encontrar o filho entre os mortos. Pelo menos seria o fim da dúvida. Poderia ser aquele rapaz que quase teve a cabeça arrancada por uma navalha; ou aquele outro, torturado antes de morrer, sem as unhas das mãos e com a genitália esmagada; poderia ser o negro que teve a cabeça partida por um machado, o cérebro coagulando na gaveta número 22, geladeira F. Não importa que o filho sumido era branco, já não há mais nexo algum nestas visitas dolorosas ao inferno.
Ele prefere não pensar que talvez o corpo do filho tenha sido enterrado como indigente numa vala clandestina longe dali, ou esteja neste momento numa mesa de necropsia em outro Estado _ mesmo outro País… Ele precisa saber. Algo o empurra a essas pesquisas doentias.
Essa obsessão já lhe custou a vida, de qualquer forma. Primeiro perdeu a mãe do garoto, cheia de rancor. Não adiantou ele tentar explicar o que aconteceu: tinha dado as costas ao filhinho de três anos por menos de cinco minutos. Foi até a barraca de cachorro-quente do parque, a vinte metros da caixa de areia onde o pequeno ficou brincando. Quando procurou o menino não encontrou. A angústia lhe doeu no estômago como uma facada. Chamou, gritou, correu todo o lugar. Avisou a polícia, percorreu hospitais, ligou desesperado para parentes e amigos, alguém poderia estar com a criança…
Nunca mais teve notícias do menino.
Meses depois a mulher saiu de casa. Ele queria dizer a ela que não teve culpa, mas não conseguiu articular essa mentira.
Depois, perdeu o emprego. Não se concentrava em outra coisa que não a procura do filho. Os amigos se afastaram gradativamente. Logo ele se tornou tão esquecido de todos como o garoto que desapareceu.
Finalmente, perdeu a saúde. Conseguiu uma aposentadoria por invalidez cuja maior parte gasta pagando a propina ao pessoal do IML e comprando antidepressivos que parecem não fazer mais efeito. Julga-se um zumbi, um morto-vivo sem sentimentos que não sejam a dor e o desespero. Sabe que está vivo porque ainda dói. Mas logo isso vai mudar.
Entrou em casa, cuspiu sangue na pia do banheiro e sentiu a doença corroendo seus pulmões. O frio do necrotério certamente não colabora com sua saúde debilitada.
Um dia ele vai se deitar, apenas imaginando como teria sido ver o filho crescer. A primeira aula, a primeira namorada, a formatura… um rapaz bonito e inteligente que estaria com um diploma agora se o destino não o tivesse arrastado para longe de casa.
Um dia ele vai se deitar pensando em tudo isso e não se levantará mais.
Dormia há poucos minutos sonhando mais uma vez com o pequeno perdido, quando foi acordado por batidas na porta. Tentou ignorar, mas a insistência do visitante era surpreendente.
Esqueceu quando foi a última vez que alguém o visitou. A curiosidade rompeu a indiferença de seu sofrimento. A essa hora da noite, devia ser algo importante. E importante para ele era saber o que aconteceu naquele parque, tantos anos atrás.
Pensando assim, levantou-se e calçou as chinelas.
II
O coração do rapaz começou a bater mais forte, à medida que se aproximava da velha casa. Vasculhou a memória atrás de alguma lembrança daquele lugar, mas nada encontrou… nenhum indício de que aquela fachada com tinta descascando e janelas escuras tivesse alguma relação com sua infância.
Respirou fundo e avançou um pouco mais, passos lentos. Recordou-se das revelações que o levaram até ali.
Sua vida inteira ficou de cabeça para baixo nos últimos seis meses. Aquela que sempre julgou ser sua mãe definhava vítima de uma paralisia que imobilizou primeiro os músculos da face, depois os membros, e finalmente se espalhou para os órgãos vitais, cada vez menos capazes de mantê-la viva.
Aquela mulher que ele aprendeu a amar confessou um ato tão insano quanto monstruoso.
Há muitos anos, ela havia sobrevivido por milagre depois de abortar pela terceira vez. O marido frustrado partiu sem dizer nada, deixando em seu lugar a amargura. A mulher abandonada vagava pela cidade como um zumbi. Tinha certeza que a única forma de resgatar um pouco da própria humanidade seria com uma criança nos braços, para provar ao marido, ao mundo e a ela mesma que podia ser uma boa mãe.
Numa dessas andanças sem rumo, viu um menino brincando num parque. Foi como encontrar um anjo salvador. Teve uma inspiração que só poderia vir do completo desespero. Começou a visitar aquele parque todas as manhãs. Muitas vezes encontrava o garoto. Notou que em algumas ocasiões a mãe acompanhava a criança, mas o mais comum era o pai participar daqueles passeios. Hesitou por algum tempo, mas acabou seguindo-os de longe certo dia. Conheceu a casa daquela família. Pareciam felizes. Felizes como ela deveria ser.
A ideia do que faria foi crescendo em sua alma e o que antes era apenas um delírio passou a ganhar contornos de possibilidade.
Um dia decidiu-se. Aproveitou que o pai tinha se afastado e foi até a criança. O menino abriu um maravilhoso sorriso assim que a viu, como se já a conhecesse ou esperasse por ela há longo tempo.
Qualquer dúvida desapareceu diante daquela manifestação de pureza e amor.
Uma hora depois ela estava em casa com o garoto brincando tranquilamente num canto e, de vez em quando, perguntando com voz infantil e chorosa onde estava “papá”.
Ela fez força para esconder as lágrimas e respondeu que agora ela seria a mamãe dele. Não havia mais papai, nem a outra mulher que ele chamava de mamãe: apenas ela.
O garoto foi criado com amor desde o primeiro momento. Um amor doentio na origem, mais obsessivo que generoso. O menino cresceu forte, belo, inteligente. Tornou-se um rapaz de bom caráter e grande coração.
Ele ouvia o relato daquela moribunda e sentia uma enorme onda de angústia ganhando forma em sua alma. Chorava silenciosamente enquanto a mulher contava onde viviam seus verdadeiros pais. Ela deu indicações pouco precisas, mas o suficiente para uma busca.
Depois que aquela que chamava de mãe morreu, ele não adiou a partida nem por um minuto. Voltou para a antiga vizinhança do outro lado da cidade, fez perguntas, buscou informações. Talvez os pais não mais vivessem na mesma casa, talvez tivessem morrido, talvez até tivessem se esquecido dele; havia uma infinidade de incógnitas turvando-lhe o caminho, mas isso não o intimidava.
Conseguiu o antigo endereço de onde morava; onde talvez tivesse sido feliz nos primeiros três anos de vida. Não se lembrava, não poderia, e esse esquecimento aumentava seu desespero. Tentou odiar a mulher que o raptou, mas só conseguiu sentir um profundo vazio. Uma apatia pior que o ódio.
Chegou junto à porta da frente e bateu. Ninguém respondeu. Insistiu. Nada. Pensou em desistir. Chegou a tomar o rumo da calçada, mas se deteve no meio do caminho. Voltou à porta e bateu de novo, com força. Derramou todo o ódio que o próprio destino lhe inspirava em pancadas cada vez mais fortes.
Ouviu o que parecia ser o arrastar de chinelas do outro lado da porta. Seu coração ficou apertado, oprimido pela ansiedade.
A porta se abriu com um leve ranger.
III
O velho abriu a porta e viu a si mesmo, só que mais jovem, como num espelho que atravessasse o tempo. Um rapaz de dezoito anos no máximo, com algumas penugens despontando na cara bonita, o cabelo um pouco desgrenhado, olhava fixamente para ele com o rosto rubro de emoção e a respiração pesada no peito. Lágrimas brilharam nos olhos do moço que tentou falar, mas não conseguiu. Foi o velho quem rompeu o silêncio:
_ Entra, meu filho.

FIM

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