A quarta estação
O Sol a pino não deixava dúvida, mesmo para quem não tinha relógio de pulso, como era o caso de quase toda a população da vila. Era meio-dia cravado. Doze badaladas seriam ouvidas se o sino da igreja não estivesse no ferreiro, rachado e precisado de conserto.
No caminho que vai do povoado para a roça, passando por um brejo e cortando o bosque, a poeira levanta a cada passo de gente, a cada galope de cavalo, a cada volta de roda de carroça. Levanta até com a não-passada de saci, que vem brincando num pé-de-vento sobrenatural.
Mais poeira que tudo isso, levanta Venceslau na sua corrida desesperada. Sabe que o matador está em seu encalço, no máximo mil passos para trás. O medo impulsiona o capiau, que parece voar dois dedos acima do chão, igual saci pegador de carona em pé-de-vento.
Vai correndo o matuto, pensando na besteira que fez. Justo com a mulher do caramunhão, ele foi se engraçar. Mas ela também, oferecida no vestidinho curto, com a boca pintada, aquela pele de cacau queimado ao sol. Venceslau é homem, ia fazer o quê? Ignorar e fugir como um garnizé? O prazer daquele corpo de mulher debaixo dele, na própria cama do anti-cristo, as pernas arreganhadas num oferecimento pornográfico. Venceslau gozou e fez Marieta gozar, gritando e babando. Mas do gozo agora não resta nem o gosto, nem a gota, nem a lembrança! O medo de morrer sangrado que nem leitoa no Natal embaçou tudinho.
Estava ele no meio da sem-vergonhice com a dona, quando Tibúrcio entrou de repente no quarto. Era para ele chegar só no fim da tarde, Marieta garantira. Vai ver, o peso diferente na cabeça, provocado pelo adereço de boi que Venceslau lhe proporcionara, serviu de alarme para o jagunço sangue ruim. Tiburcio é conhecido até em Ilhéus, mais de 20 mortes nas costas, a mando de outrem ou por vontade própria.
É esse o filho do demo que Venceslau tem agora em seus calcanhares, quase consegue sentir o bafo quente de cachaça com ódio que o assassino exalou sobre ele e Marieta quando invadiu o quarto. Não fosse Venceslau homem de reflexo ligeiro e nenhumas banhas, tinha morrido ali mesmo na peixeira do outro. Mas a magreza da carcaça e a esperteza do raciocínio fizeram com que pulasse pela janela como que jogado por uma mola.
Mas fugir para quê se o bandido o viu em flagrante delito? Fugir para onde, meu Deus? O homem não deve nem vir correndo, certo de que uma hora pega o infeliz do Venceslau.
Nessas horas de infortúnio, todos sabemos que os anjos sopram as soluções para o que parece perdido. Venceslau lembrou-se da estação de trem, ali mesmo no caminho que lhe serve de rota de fuga. Fica a mais uns dois quilômetros, quanto muito. A quarta e última estação da Estrada de Ferro Cacauana, linha de escoamento do cacau que deveria ir bem mais longe do que foi. Nunca passou da quarta etapa. Lá ficam os poucos trens que vêm das outras estações, em Água Preta, Sequeiro de Espinho e Taquaras, não tendo mais trilhos para percorrer depois da famigerada estação de Canas. Famigerada porque já foi cenário de muita morte, de morte matada e morte morrida.
O pânico fez nosso mirrado ferrador de cavalos – é esta sua profissão – lembrar-se de todas essas informações inúteis. Vai ele, correndo pela estrada e balbuciando os nomes das quatro estações. Mas o nome mais importante é o do encarregado do telégrafo em Canas. Verrúquio. Verrúquio, Verrúquio, Verrúquio. Esse nome Venceslau murmura enquanto corre, como quem reza. Verrúquio, valente na juventude, saiu andando de muitos duelos em que o adversário ficou deitado, sangrando. Faca, parabelo, pistola, não tinha arma que ele não dominasse. Foi grande a seu tempo. Depois veio a modernidade, uma tal de lei, que impôs um novo código de conduta. Verrúquio se adaptou, largou as armas, arranjou emprego na Companhia Ferroviária. Muitos anos se passaram, mas a fama do telegrafista permaneceu, passada de boca em boca.
Venceslau lembrou-se de Verrúquio. Tomou o rumo da estação, chegou bufando e gritando por socorro, de joelhos, mãos juntas e olhos lacrimosos.
_Pelo amor de Deus que ele me mata! _ gritou.
_Mas que marmota é essa? _ espantou-se Verrúquio.
_Seo Verrúquio, valei-me, meu Deus, valei-me. É que vem aí o Tibúrcio bandido assassino mais de 20 mortes nas costas atrás de mim por um mal entendido uma besteira imagine vem com sede de sangue ai meu Deus do céu eu não fiz nada não tenho culpa…
_Se acalma, filho dum jegue, que assim eu não entendo nada.
Venceslau contou sua imaginária versão dos fatos, Marieta precisava de alguém para consertar a cama que rangia, ele caridoso se dispôs a resolver a questão, o marido chegou bem na hora, não quis conversa.
Verrúquio passou as mãos pelos cabelos brancos. Nem por um momento acreditou na fábula de Venceslau. Mesmo assim sentiu um arrebatamento. O sangue velho ferveu como na época das brigas. É diferença a resolver com morte, como tantas em que ele próprio se meteu em sua época. E, o que mais pesou: se ele se submeteu às leis, quem era Tibúrcio para querer ficar acima delas? Há muito tempo Verrúquio procurava uma desculpa para se entender com o novo valentão das redondezas.
_Vai lá para dentro e tranca a porta, estrupício. Lá tem uma garrucha, velha mas azeitada e carregada. Se eu não der conta da pendenga, você vai ter que fazer por onde. Seja homem, que não defendo maricas!
_Sim senhor, gemeu Venceslau, correndo para o abrigo e virando a chave na maçaneta.
Verrúquio abriu um alçapão e pegou a velha parabelo. A arma pareceu queimar em suas mãos. Ele sabia que ainda ia precisar da velha companheira, por isso chegava ao serviço todo dia meia hora mais cedo, só para azeitar a bicha. Lentamente, o telegrafista carregou a espingarda e saiu da estação.
Não demorou um nada, chegou Tibúrcio. Meio surpreso de ver o velho na rua em frente à parada de trem, imaginou logo o que se passava.
_Tardes, seu Verrúquio.
_Tardes.
_O senhor por acaso não inventou de proteger aquele pedaço de bosta…
_Pois se o senhor fala do Venceslau, está enganado. Está sob a minha guarda, sim.
Os olhos do matador ficaram vermelhos de ódio.
_Mas seo Verrúquio, o safardana estava deitado com a minha mulher, é desaforo que macho nenhum engole. Só bebendo o sangue do cachorro!
_Olhe, seu Tibúrcio, assim era lá na minha época, quando não tinha lei nem juiz. Hoje é diferente. Se tem motivo de queixa, larga sua mulher, ignora. Essa é a atitude de quem se dá valor. Vá viver sua vida, deixe a traidora na vergonha, abandonada à própria sorte.
_O senhor não gaste mais saliva, que eu não posso viver sabendo que esse um aí, que o senhor protege, ainda respira o mesmo ar que eu. Prefiro é morrer.
_Então o senhor não me dá outra opção.
_Seu Verrúquio, em respeito a seus cabelos brancos, eu esqueço essa afronta se o senhor largar a parabelo e deixar eu acertar as contas com o vagabundo.
_Isso não vai acontecer, meu filho.
Os dois homens se fitaram na estrada deserta. O trem só chegaria dali a uma hora, mas tinha gente na estação de Canas que nunca mais veria um desembarque.
Tibúrcio se valeu dos reflexos mais jovens, ergueu a arma e fez o primeiro fogo. Acertou Verrúquio em cheio na barriga proeminente. Mas não contava o jagunço com a valentia do outro. Antes de cair o velho teve força para disparar sem saber direito para onde. A carga foi guiada pelo destino e arrancou o chapéu de Tibúrcio. Junto com o chapéu, voaram também os miolos.
Uma hora depois chegou o trem. Os passageiros, poucos, desciam e se espantavam. Alguns se benziam. Uma matrona cobriu os olhos de uma menina com as mãos. No chão, dois corpos com o sangue já seco desenhando manchas irregulares sobre a terra.
A autoridade foi chamada. Demorou a chegar. O delegado Antunes olhou a cena, arrotou o almoço e coçou a barriga. Olhou para a estação e determinou, sonolento:
_Vamos ver o que tem lá dentro.
Viu o alçapão aberto. “O desgraçado do Verrúquio”. Tentou abrir a porta da despensa. Não conseguiu. Procurou a chave, não achou. Deu um chute. Outro, mais forte. Desistiu do arrombamento, chamou um dos passageiros do último trem, sujeito corpulento que continuava por ali, junto com uma legião de curiosos.
_Bota essa merda abaixo, meu filho, faz favor.
O gordalhão não precisou mais do que um arremesso do próprio peso. Dentro do minúsculo cômodo, Venceslau, com a garrucha na mão. Só não disparou porque faltou estômago. Vomitou ali mesmo.
A história do duelo ganhou nuanças de romance. Por muito tempo foi contada ao longo das quatro estações, e mais além, até as cercanias de Ilhéus. Cada contador do caso aumentou um ponto. Ora dando como certo que houve mais de cem tiros na briga. Ora deixando claro que Verrúquio, mesmo depois de baleado, ainda tivera forças para matar o oponente e emitir um telégrafo, chamando o delegado antes de morrer.
O fato virou lenda. As lendas são sempre mais interessantes que a realidade. Quanto a Venceslau, apenas retardara por alguns meses a sina que o esperava como onça à espreita. O caso com Marieta, que resultou na morte de dois, revelou-se nada mais que um capricho, afinal. O ferreiro de cavalos enrabichou-se com outra mulher casada, foi novamente flagrado pelo marido, não contou dessa vez com um Verrúquio que lhe servisse de anjo da guarda.
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Conto em homenagem a Jorge Amado, com referências a “Tocaia Grande” – as estações citadas no texto (menos a de Canas, criada por mim), constam do livro.


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