De como o boi capão revoltou-se um dia e fez em pedaços o cercado que o prendia.

(Este conto tirou o segundo lugar no  Prêmio Literário Ziraldo 2010 )


Nazário apertou o lenço contra as narinas respingantes, pensou “quem me dera ser macho, mas macho mesmo, daqueles que não mandam recado”. Caminhou a passos trôpegos para a escola primária, zona eleitoral nesse domingo de sol. Passarinhos cantando, crianças correndo descalças e ele ali, a caminho da urna, suando como banha no fogo, só não chorando de raiva porque homem não chora. “Um monte de merda é o que sou”, vai pensando pelo caminho. “O Coronel é um bandido, matador, ‘estrupador’, sangue ruim. Ninguém que votava nele se não fosse desse jeito, com o cano na nuca”.
A poeira da estrada de terra e o sol na moleira deixam o tempo e a vida surreais, como quem anda na bruma a caminho do céu ou do inferno, o lenço permanentemente contra o rosto para evitar o pó suspenso no ar. O medo de desobedecer e a ira de se entregar à pressão vão misturados no estômago, traduzidos numa cólica de virar as tripas, boca seca e língua amarga. “Nem para cascalhar essa estrada o coronel prestou. Ficou quatro anos na prefeitura, se refestelou de tanto mamar no dinheiro do povo. O povo, que é bom, ficou a ver navios”, indigna-se Nazário.
Mesmo antes de começar a subida rumo à escola, já avista o jagunço do Coronel. Zé Preto parado na frente do portão, a garrucha de través no peito, o chapéu de couro enterrado na cabeça. Zé Preto não faz jus ao apelido, está mais para mulato-claro, o próprio Nazário tem a pele bem mais escura que a dele. Dizem que para entender o apelido do outro, só mesmo olhando suas partes íntimas. A puta Deolinda, que já andou conferindo o equipamento, garante que é da cor do mais profundo breu. “Pela cor e pelo tamanho, lembra um cabo de martelo que foi enfiado no piche”, costuma comentar entre risos com as colegas de profissão.
Cada zona eleitoral tem um desses matadores de plantão, fiscalizando voto a voto. Fiscais mais zelosos do que os da Justiça Eleitoral, que parecem ter esquecido a cidade.Nazário sente-se fuzilado pelo olhar morteiro e amarelo do jagunço, tão logo se aproxima do portão. Esbarra em dona Cotinha, 80 anos, doente e amparada por dois netos. A velha foi obrigada a votar. Os bandidos do coronel foram à casa dela dar o recado: “tem que votar no sinhozinho, senão pode ficar ruim para sua parentalha”, nenhum pudor em ameaçar a trêmula senhora. Ignoraram o fato de ela não ter mais condições físicas para ir até a urna, mal conseguiu segurar a caneta e desenhar o “X”. Passa por Nazário quase pendurada nos netos, emitindo ruídos guturais de quem se engasga com o ar poeirento. Nazário sente crescer ainda mais o ódio que dedica ao pai de todas aquelas pequenas e grandes desgraças.A sala onde fica a urna é nos fundos da escola. O movimento está fraco a essa hora. Mas Nazário ouve passos além dos seus no corredor de vermelhão. Olha para trás e vê Zé Preto a poucos metros, seguindo-o com arrogância.Aproxima-se do mesário e entrega o título de eleitor: Nazário Firmino de Almeida, 38 anos.
Falta dizer no documento que é casado, pai de seis filhos, lavrador, pobre e analfabeto. Zé Preto nos seus calcanhares acompanhando tudo. A cédula é entregue por um assustado negro de cabelos grisalhos _ “faça o favor de assinar aqui”, “assinar como se sou ‘guinorante’ que só uma mula?”, todo ano eleitoral é a mesma pergunta, a mesma resposta do mesmo mesário _ “é só fazer um ‘X’ ”. Depois desse patético ritual a urna é indicada com uma interjeição que mais parece um rosnado e um aceno de cabeça.Nazário caminha para a urna. É muito desaforo, mas Zé Preto o segue de perto. Tão perto que dá para sentir a fedentina. O lavrador logo entende: “o jagunço recebeu orientação especial no meu caso, o coronel notou minha má vontade em votar nele”. As mãos ficam geladas e uma bola de cuspe fica encravada a meio caminho do estômago, na goela. A queimação aumenta, o suor frio começa a escorrer pela testa. Uma besteira que Nazário vem ruminando há um tempo começa a tomar forma de possibilidade. “Sou macho, voto em quem eu quero”. Meio cego de frustração, ele começa a considerar a possibilidade de recusar o cabresto, desobedecer o Coronel, afrontar o jagunço que funga em suas costas como cavalo bravo.
Na cédula, dois nomes: o pobre lavrador foi informado pelo mesário que  o do Coronel “de tal” está em cima e o do Professor Sapopembo, embaixo. Sem essa informação, não teria como diferenciar um do outro, limitado pela cegueira do analfabetismo.
Há ainda uma linha para escrever o nome do vereador. Nada mais. Esse espaço é indiferente, todos os candidatos comem na mão do Coronel, borra-botas e puxa-sacos ansiosos pela oportunidade de beijar a bunda do mandatário. Nazário nem trouxe colinha para vereador; não escreve nada sobre a linha desenhada, concentra-se nas duas opções para o cargo de prefeito.
Hesita. Zé Preto deixa transparecer uma ponta de surpresa no meio da carranca severa: “ousadia desse cabra demorar pra decidir, então não sabe que o Coronel já decidiu pra ele?” pensa. Nazário quase sente a temperatura da sala subir dois graus. Os mesários notam a demora e fixam os olhos nele e no jagunço. O ar fica tão pesado que parece possível tocá-lo. A mão trêmula apanha a caneta, percorre o espaço em direção ao papel, segundos virados em horas, dias, eternidade, o tempo parado em redor.
Nazário sai da escola sem sentir o chão sob os pés. Retoma a estrada de terra que leva ao arraial, repentinamente fascinado pela paisagem tantas vezes vista _ observada como se pela primeira vez fosse. As árvores esturricadas, as pedras soltas machucando as pernas dos passantes. O mato ralo e amarelado margeando o caminho, as cabras pastando terra seca, desesperadas por algum tesouro verde escondido debaixo da poeira.
Os ruídos também ganham outra dimensão. O trinar dos pássaros, o mugir do boi capão, tristonho em sua prisão de madeira e arame farpado. “Não sou como ele, sou livre”, constata Nazário enquanto percebe os passos de alguém logo atrás. Não precisa se voltar como fez dentro da escola para saber quem vem pelo caminho. Logo adiante a trilha se bifurca. O rumo que  Nazário vai tomar é o menos usado pela gente do lugar. Homem de poucos amigos e nenhum vizinho, logo vai ficar só na estrada. Não completamente só, o homem que caminha atrás dele vai segui-lo, não há dúvida.
“Às vezes um cabra tem que fazer o que quer”. Um luxo que se permitiu cometer. Não se arrepende mas sabe que logo a vida vai cobrar o preço de tal ousadia. Um preço nada baixo, mas que vale a pena ser pago, só por essa consciência transcendental que Nazário agora experimenta das coisas, das pessoas, dos cheiros, da vida. “Cansei de ser escravo. Que venha o castigo, ‘num’ me curvo nunca mais”. Assim pensando Nazário caminha rumo ao desfecho que ele mesmo escolheu, ciente de que o covarde nessa história não é ele. Esta é a primeira vez na vida que se percebe dono do próprio destino. Também a última.

FIM

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