A festa
Wassily Kandinsky
Acabei de ir a uma excelente comemoração de aniversário. Por isso, o relato que segue (sobre outra festa) se tornou ainda mais interessante, pelo menos para mim. Vamos a ele:
Não é que eu seja bisbilhoteiro, mas sabe como é: jornalista é um bicho curioso. E, a bem da verdade, os protagonistas dessa história que vou contar não estavam muito preocupados em esconder os fatos de quem estivesse por perto.
Estava eu, muito na minha, alongando depois de correr no Parque Ecológico de Indaiatuba quando notei um grupo de jovens recém-saídos da adolescência, também se alongando. Uma menina muito bonita, loira, outra morena igualmente bela, um rapaz de óculos e outro sem nenhuma característica que o distinguisse.
Esse um, que não se destacava à primeira vista, era o narrador do “causo”.
- Ontem um chegado me chamou para a festa de aniversário dele – contava. – Eu estava cansado mas resolvi ir. Ele era meu amigo, afinal. Quando estava quase chegando no endereço do buteco no Cambuí (bairro de Campinas-SP), o telefone tocou.

"Baile na Roça", de Portinari
– Fala, velho – disse o meu amigo aniversariante. – A festa mudou de endereço. Vai ser num barzinho bem legal que eu achei. Anota aí.
“Eu não conhecia o lugar mas anotei o endereço e achei rapidinho. Quando entrei, percebi que a festa não seria nenhum sucesso de público: tinha uma meia dúzia de sete pessoas ali.
“Já que estava lá, resolvi tentar aproveitar. Pedi uma cerveja.
“ – Só tem cerveja ‘Quintal’ – disse um garçom mal humorado. Nunca tinha tomado aquela, mas já conhecia a fama de ter gosto de água sanitária. Sem opção, pedi uma, e uma porção de fritas.
“A bebida veio quente e a batata, fria. Quem disse que aquela marca de cerveja tinha gosto de água sanitária foi muito bondoso com ela. Era pior.
“Quis ir embora. ‘Que é isso, você mal chegou, velho’, disse o meu amigo. Atendi ao apelo e me sentei de novo. Acabamos engatando uma conversa até que animada, demos umas risadas… aí veio o garçom de novo e avisou: – por favor, falem mais baixo que a gente tem vizinhos aqui que reclamam do barulho!”
- Você tá de brincadeira! – exclamou a loira bonita nesse ponto da história. Eu, a essa altura, já estava esticando até o dedo mindinho, só pra ficar por ali mais um pouco e continuar ouvindo o rapaz, para saber como aquela festa ia acabar.
- Juro – respondeu o rapaz. – O cara deu uma bronca na gente… “quero ir embora, mano”, falei pro meu amigo. Mas ele parecia gostar de sofrer, não quis acabar com aquilo.
“- Vamos cantar parabéns, então – anunciou um outro amigo. Começamos, e nem cinco segundos depois, voltou o garçom mal encarado: ‘desculpem, mas não podem fazer essa barulheira! Nós temos vizinhos que reclamam, etc, etc’. Aí eu não aguentei e respondi: ‘escuta, meu amigo. Isso é uma comemoração de aniversário do meu chegado aqui. Você já viu festa de aniversário sem parabéns?’ Eu estava louco para voar na garganta daquele mala. Mas o cara não desistiu: ‘bom, então tá, mas sem bater palmas’, ele respondeu”.
- Como é que é? – perguntou a loira, descrente.
- É isso mesmo. Já viu parabéns sem bater palmas? Foi a primeira vez que eu vi. Coisa mais bizarra, deprimente, parecia velório e não aniversário. Depois do “parabéns”, eu joguei o dinheiro da minha parte da conta na mesa e saí de lá tão rápido que até levantou poeira do chão. E eu só conseguia pensar em como era ruim aquela cerveja. Na primeira barraca de cachorro-quente que encontrei, pedi um guaraná e tomei de um gole só, pra ver se tirava o amargo da boca.
O grupo comentava como uma saída noturna podia ser frustrante, enquanto eu tentava encontrar o lado bom daquilo tudo: pelo menos ficou claro por que o bar estava tão vazio.
PS- O nome da cerveja foi modificado para preservar a marca, tão duramente acusada pelo narrador desta história.
"Baile na Roça", de Portinari


Comentários
Postar um comentário