O Fantasma do Escritório

Muita gente não acredita, mas a verdade é que todo prédio com mais de trinta anos tem um fantasma. A maioria deles é discreta.

Só aparecem de vez em nunca para dar assunto às lendas que os mantém presos a este plano. Mas também existem os malvados e os brincalhões – mais raros.
Esta história é de um dos fantasmas comuns, silenciosos e discretos, enrustidos em seus quartos escuros, seus porões abandonados, seus armários esquecidos.
Ele vivia – se é que se pode dizer que um fantasma vive – no último andar de um prédio de escritórios. Habitava a despensa, na copa, entre esfregões e baldes.
Enquanto tinha corpo, esta alma penada exercia ali função importante. Era chefe do departamento jurídico. Por muitos anos, resolveu pendengas, encontrou chicanas, livrou a cara dos patrões e empurrou processos com a grande barriga. Até que um dia, depois de bater um carimbo num documento, sentiu uma dor no braço esquerdo e… foi a última coisa que sentiu.
Já faz muito tempo que isso se passou. Mas o pobre desencarnado não conseguiu abandonar a rotina que o acompanhou por toda a vida profissional. Decidiu ficar por ali, entre os papeis, os carimbos e as tramoias, como quando ainda era vivo.
Desde que virou fantasma, só apareceu para uma faxineira que tentava tirar uma teia de aranha da parede da despensa. Foi o que bastou para se tornar assunto nos happy hours, entre olhos arregalados dos novatos e risadinhas descrentes dos funcionários mais antigos. Satisfeito com aquela notoriedadepost mortem, o velho advogado gozava de seu prestígio sem importunar ninguém. Ou quase ninguém, afinal a faxineira nunca mais subiu ao último andar.
A paz entre espíritos e viventes reinava, portanto. Mas… sempre existe um “mas”…
Chegou uma crise financeira braba. A empresa até então aparentemente sólida, bambeou das pernas. Os donos, contra a parede, decidiram economizar “realinhando a folha de pagamentos”- uma forma bonita de dizer que iam demitir, e demitir muita gente.
O fantasma observava aqueles rostos taciturnos dos funcionários prevendo desgraça, aquele clima carregado, elétrico, que prenunciava tempestade e prometia não deixar pedra sobre pedra entre aquelas salas que ele tanto amava. Sentiu-se impotente como nunca antes se sentira. Pensou até em ir “para a luz”… mas resistiu. Devia haver algo que pudesse ser feito, e esse pensamento passou a dominar toda sua vontade.
Ele que durante toda a vida nunca se preocupou de verdade com um colega, sentia de repente a necessidade de fazer algo bom. Algo desinteressado em favor de gente que nem o conhecia. Na pior das hipóteses seria uma forma interessante de espantar o tédio mortal em que se encontrava.
Os donos da empresa contrataram uma consultoria para proceder as demissões. O fantasma conhecia bem a estratégia, não sujar as mãos era prática antiga naquela firma.
Ele notou então que um dos “consultores” passou a ocupar a mesa perto da copa. A mesa que era dele, em vida. Aí já era demais. Que desaforo!
Foi a gota d’água. O fantasma tomou uma resolução. Interferiria o quanto pudesse, para adiar as demissões.
Começou misturando documentos, escondendo papeis, embaralhando arquivos informatizados. O consultor, zeloso, achou estranho mas tocou o trabalho adiante. Então o fantasma pegou pesado: começou a arrastar cadeiras tarde da noite, quando apenas o consultor estava no prédio – ele tinha o hábito de fazer hora extra.
Não adiantou. O fantasma passou então a bater as portas e janelas. O consultor se levantava, ia até o local de onde vinha o barulho e fechava a porta com chave ou passava o trinco na janela barulhenta.
Foi uma declaração de guerra. O advogado fantasma pediu umas correntes emprestadas a um conhecido – outro fantasma, só que “dos malvados”. Passou a arrastá-las pelo chão, com um gélido estrépito de metal contra o soalho… mas nada intimidava o consultor que parecia ignorar completamente as provocações do além.
Furioso, o fantasma decidiu que era hora de aparecer para aquele sujeitinho desaforado.
Numa noite de tempestade, enquanto o consultor fazia seu trabalho sozinho no prédio, o fantasma apareceu de repente. Não tinha muita experiência naquilo, mas pediu umas dicas para o fantasma “do mal” e caprichou na produção horripilante. Botou umas aranhas saindo pelo nariz, fogo nos olhos, dentes de vampiro na boca… As mãos pareciam garras mortíferas.
- Eu sou o fantasma que habita este prédio – anunciou o advogado morto. – Estou aqui para amaldiçoá-lo, se continuar com essas demissões que está preparando.
É verdade que o nosso fantasma é do tipo discreto e bom caráter, mas até o Zé do Caixão levaria um susto. Não foi o que aconteceu com o consultor.
Ele se limitou a erguer a cabeça, ajeitar os óculos de leitura sobre o nariz e, sem se alterar um milímetro sequer, responder com voz tranquila:
- Ah! Resolveu se mostrar.
O fantasma ficou desconcertado, para dizer o mínimo. Quem levou o maior susto foi ele.
- Faz tempo que eu o vejo por aqui. Desde o primeiro dia que entrei neste escritório. Você estava ali, perto da contabilidade, fazendo nada. E noite após noite acompanhei os seus esforços para me assustar… confesso que dei algumas risadas às suas custas, desculpe.
- Mas… como… é possível? – balbuciou o fantasma, surpreso.
- Ora, não é óbvio? Eu sou medium, estou acostumado a ver coisas bem mais feias do que você quase todos os dias…
E essa agora? Tanto consultor no mundo, e ele teria que enfrentar um que estava acostumado com o “outro lado da vida”…
- Agora que você se abriu, vamos aos fatos: por que fica me aborrecendo toda noite? O que você quer?
- Bem… sabe… eu acompanho a rotina dessa empresa há anos. Desde quando ainda estava vivo, e muitos anos desde que morri. Me afeiçoei às pessoas que trabalham aqui. A maioria é antiga de casa, gente decente, trabalhadora. Fiquei com pena ao ver que muitos vão ser demitidos. Achei que se eu conseguisse lhe atrapalhar, talvez o processo fosse atrasado, os donos reconsiderassem.
- Meu Deus, você ficou ingênuo depois de morto? Então você acha que se eu for embora e nunca mais voltar, os donos da empresa simplesmente vão desistir das demissões? Que bobagem…
O advogado morto teve que concordar. Foi muita inocência esperar um final feliz para aquela história.
- Mas você não pode dar um jeito? Oferecer uma alternativa para não ser necessário demitir o pessoal?
- … do tipo…?
- Sei lá, corte de gastos com combustível, diminuição das bonificações para a diretoria…
- Jesus, você é mais ingênuo do que eu pensava…
O fantasma se irritou. As regras continuavam as mesmas de quando ele ainda caminhava entre os homens. Nunca, nesta ou na outra vida, alguém abandonaria um privilégio em favor de outra pessoa.
- Está bem. Faça o seu trabalho sujo. Não vou mais incomodá-lo… Acho que é hora de partir, depois de tantos anos.
O consultor ficou um pouco sensibilizado:
- Ora, também não é para tanto. A empresa não vai desaparecer, você sabe.
- Sim, mas eu não suportarei a carga de tristeza, o carma negativo que empesteará tudo por aqui. Vou procurar meu caminho…
O consultor pensou um pouco, e finalmente disse:
- Vamos fazer o seguinte. Você me mostra onde cortar despesas sem ter que demitir, e eu apresento o projeto para os donos da empresa.
- Você… está me chamando para trabalhar com você?
- Você tem algo melhor para fazer no seu pós-vida? – retrucou o consultor.
E assim, noite após noite, o advogado fantasma examinou relatórios, orçamentos, planilhas, enquanto o consultor fazia contas e mais contas numa velha calculadora científica que achou largada na gaveta do defunto. Foram longas noites em que o fantasma sentiu-se mais vivo do que quando ainda tinha corpo. O entusiasmo tomou conta de sua pobre alma.
O consultor, igualmente, acabou descobrindo que tentar ajudar os outros poderia ser muito mais estimulante do que simplesmente cumprir ordens destrutivas.
O resultado daquele esforço metafísico não foi nada mal. Havia de fato muito desperdício naquela firma. Eliminando-os, a saúde financeira seria alcançada em poucos meses, sem ter que condenar ninguém ao desemprego.
- E vocês ainda vão parecer heróis para seus funcionários. Querem forma melhor de motivar uma equipe? – disse o consultor na reunião com os donos, usando os argumentos que seu parceiro fantasma lhe sugerira na véspera.
Mas não teve jeito. Os empresários não estavam a fim de fazer o caminho difícil. Rejeitaram o plano e demitiram – começando pelo consultor; O tal final feliz, que parecia tão perto, não chegou.
Na última noite de trabalho, o consultor despediu-se do fantasma, amargurado.
- Teria dado certo, meu amigo – ele disse.
- Teria sim – concordou a alma penada.
- O que você vai fazer?
- Vou-me embora daqui.
E foi mesmo, encontrar seu destino.
Alguns meses depois, lendo o caderno de negócios de um jornal, o consultor viu a notícia da falência da empresa. As demissões se mostraram inúteis sem o combate ao desperdício que ele e o fantasma haviam sugerido. No fim das contas, talvez a demissão não tivesse sido tão ruim para os funcionários. Pelo menos eles poderiam procurar um emprego melhor, chefes melhores.
Quase no fim da nota de jornal, o consultor se espantou com a notícia de que o prédio onde funcionava a companhia seria ocupado por uma empresa de planos funerários. “Para fazer a viagem em paz” era o slogan dos novos donos do lugar.
  • - Acho que meu amigo fantasma gostaria disso – pensou.
MC, 18/04/11

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