"Sou seu fã!"

 




A pauta era um festival de cinema em Paulínia, interior de São Paulo.
Não me lembro se havia tapete vermelho, mas devia haver. Muitos flashes, muitas vozes tentando se sobrepor, muita balbúrdia... e algum glamour.
Pelos corredores tietes insistentes disputavam fotos e autógrafos das estrelas que desfilavam com sorrisos congelados nos rostos maquiados.
Aquela barulheira começava a me deixar tonto...
Foi quando me deparei com um senhor muito distinto, alto, vestido de forma discreta (pulôver, calça jeans larga, camisa de mangas longas). Estava num canto, olhando em volta, mãos no bolso... parecia um pouco deslocado, sozinho ali, devidamente ignorado pelo fãs à caça dos "globais" presentes.
Era o Zuenir Ventura.
O cara que me ajudou, com seus livros, a entender o que é jornalismo.
Aproximei-me, encabulado e nervoso. Apresentei-me, apertamos as mãos:
_ Sou seu fã _ foi o que me ocorreu dizer. Faltou-me algo brilhante, impressionante ou pelo menos inteligente para falar ao mestre naquele momento.
Ele sorriu e agradeceu.
Lamentei profundamente não andar com um livro dele na mochila, pra cima e pra baixo, o tempo todo. Pensei rápido: peguei o programa do festival que levava no bolso, a caneta que usaria para as notas da matéria que faria do evento, e pedi um autógrafo.
A cena não deixava de ter alguma graça;  enquanto todos em volta disputavam as assinaturas de atores famosos, eu me empolgava com a possibilidade de conseguir uma lembrança daquele senhor com cara de vovô. Quantos à minha volta saberiam quem era aquele homem, e o que tinha feito de importante? Poucos, aposto. O habitat natural dele estava mais para Academia de Letras do que para Academia de Cinema.
Peguei o autógrafo, que mais tarde colaria na minha edição de "1968, o ano que não terminou". Agradeci, ele se despediu com um sorriso acolhedor - tinha uma postura que transbordava gentileza, tranquilidade, elegância. 
Zuenir deixava uma impressão difícil de esquecer. Uma lembrança concreta, como o papel rabiscado que me entregou e que ainda guardo.

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